São Paulo, domingo, 13 de janeiro de 2002

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ELIO GASPARI

O "barraco" do Alvorada foi coisa de fim de governo

Na noite da quarta-feira 19 de dezembro, cinco notáveis do governo tornaram-se personagens de uma cena que permitiu medir a duração de um segredo de Brasília. Eram FFHH, Tasso Jereissati, Aloysio Nunes Ferreira, Pimenta da Veiga e o governador Almir Gabriel. Estavam na sala ao lado da biblioteca do Alvorada quando se deu um inédito bate-boca entre o governador Tasso Jereissati e o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira. Foi coisa tão surpreendente (e grave) que todos cinco saíram da sala para se encontrar com o deputado José Aníbal, presidente do PSDB, e outros três governadores tucanos como se nada tivesse acontecido. Jantaram, tomaram um bom vinho e conversaram até uma da manhã. Quem não viu a cena juraria que ela não acontecera.
O segredo acabou na terça-feira passada, graças ao repórter Luís Costa Pinto. Fica assim estabelecido que uma cena secreta de Brasília tende a se tornar pública em três semanas.
O episódio durou poucos minutos. Talvez dois. Tasso Jereissati chegara ao Alvorada depois de dez dias nos Estados Unidos, três dos quais internado em Cleveland para verificar o calibre de suas coronárias. Estava enfurecido com notícias publicadas nos jornais segundo as quais tinha feito, desfeito, reclamado e articulado sem que tivesse conversado com um só jornalista durante o tempo que durou a viagem. Soubera também que o senador Sérgio Machado, seu adversário na política cearense, vinha sendo ajudado pelo ministro José Serra. Estava reclamando e, pela segunda vez, explicando que era capaz de fazer qualquer papel pelo PSDB, menos o de bobo. (Num jantar a dois ele já dissera isso a FHC.) A essa altura, chegou o ministro Aloysio Nunes Ferreira. Ouviu quieto e, a certa altura, fez uma ponderação. Tasso avançou. Na narrativa de Costa Pinto, que não foi desmentida por nenhum dos personagens, disse o seguinte:
- O senhor, meu caro Aloysio, não venha aqui posar de estadista francês. Você não é. (...) Safadeza. Molecagem. Você diz que não toma partido na minha disputa com o Serra, mas passa o dia no Palácio do Planalto plantando notinhas em coluna de jornal a favor dele e contra mim.
- Você me respeite. Eu tenho história... -respondeu o ministro.
- Eu sei bem qual é a sua história. Enquanto eu fazia das tripas coração para eleger este aqui presidente, em 1994, você rodava o Brasil de braços dados com o Quércia. (Aloysio Nunes Ferreira foi líder de Quércia na Assembléia Legislativa e vice-governador de São Paulo durante o mandato de Luiz Antonio Fleury Filho, o marechal do Carandiru.)
Na narrativa de dois participantes da cena, houve outro momento de tensão, disparado por uma troca de olhares e contornado pelo governador Almir Gabriel, que ficou sentado ao lado de Tasso. Na lembrança de um terceiro, esse momento é apenas produto da fantasia.
Fantasia mesmo foi a idéia de que o "barraco" poderia ficar em segredo. Maior fantasia é acreditar que uma cena como essa, envolvendo um cacique do PSDB e o ministro da Justiça, possa ser considerada episódio irrelevante. FFHH e José Serra (não necessariamente nessa ordem) acreditaram que poderiam congelar a sucessão presidencial. Deu errado e surgiu o fenômeno Roseana/pefelê. Se a sucessão tivesse sido aberta em setembro, talvez não houvesse Roseana. Se não houvesse Roseana, tentariam congelar o debate até março.
O "barraco" do Alvorada indica que o governo de FFHH já sofre as enxaquecas do último ano de qualquer reinado. Dias depois, o Planalto chamou oito governadores nordestinos para o que veio a ser uma reunião de trabalho, mas era, segundo o fax do convite, uma reunião inútil, repleta e sem agenda. Resultado: quatro não foram. Além de Tasso e Roseana, Jarbas Vasconcelos e Ronaldo Lessa. Se a reunião fosse a sério, teria faltado cortesia republicana aos ausentes. Quando o presidente da República convida um cidadão para um encontro, a etiqueta determina que ele bata os calcanhares e compareça. Pode espinafrá-lo antes de entrar na sua sala, pode voltar a espinafrá-lo durante e depois da reunião, mas não pode dizer que não vai. Foi a "liturgia do cargo" que sustentou José Sarney na Presidência durante os dias da agonia de Tancredo Neves, em 1985.
Felizmente, nesta semana, José Serra sai da toca e vai à luta. É esperar para ver que tipo de idéias traz para a choldra. Até agora, propostas, só quem as fez foram Lula e Ciro Gomes.

Cobrança

Tentando encurtar a lista, são dois os candidatos do governo à Presidência da República. Por ordem alfabética: José Serra e Roseana Sarney.
Nenhum dos dois disse o que acha do projeto de estripamento da CLT que deverá ser votado pelo Senado até março. Ou não dão importância ao assunto, ou dão tanta que acham melhor fingir que não sabem de sua existência.
Os dois candidatos guardam respeitoso silêncio em relação a esse assunto, enquanto a sucessão presidencial parece um tema restrito à posse de marqueteiros e ao troca-troca de siglas partidárias. De coisa séria, não se fala.

Está chegando o espanta-fumante

No próximo dia 1, começam a aparecer os maços de cigarros com fotografias de propaganda contra o fumo estampadas numa das suas faces. A partir de agora, todos os maços que saírem das fábricas deverão trazer essa nova modalidade de saudável ameaça. A mais agressiva relacionará o fumo das mulheres grávidas com insuficiências dos recém-nascidos. A mais suave, e divertida, assusta os homens com a impotência sexual.
É possível que os vendedores de tabaco ofereçam aos viciados carteiras nas quais se enfiarão os maços, escondendo as fotografias. Terão que vendê-las, pois a lei proíbe que sejam dadas de presente. Até agora, não há sinais de que a indústria pretenda escamotear as advertências. Dentro de seis meses, com a reposição dos estoques, todos os maços terão as fotografias.
Essa iniciativa do Ministério da Saúde só tem similar no Canadá, onde produziu os seguintes resultados:
- 54% dos fumantes entrevistados numa pesquisa da Sociedade Canadense do Câncer disseram que as fotografias os levaram a pensar nos danos que o fumo causa à saúde;
- 44% passaram a pensar em abandonar o cigarro;
- 38% dos fumantes que decidiram parar durante o ano passado atribuíram a decisão às fotografias estampadas nos maços;
- 17% dos fumantes admitiram que passaram a esconder seus maços, por vergonha.
As fotografias canadenses são muito mais agressivas que as brasileiras e cobrem a metade inferior das duas maiores faces do maço. As brasileiras, mais leves, ocupam toda a parte posterior, permitindo que a foto seja escondida.
A partir de 2003, a União Européia começará a usar esse mesmo recurso para desestimular o consumo de cigarros.

Parolas

FFHH pode fazer o que quiser para tentar derrubar o preço da gasolina em alguns Estados. Só não pode dar a impressão de que foi surpreendido pelas diferenças, provocadas por decisões dos governadores na cobrança de tributos.
Essas variações estão amparadas numa decisão do Conselho Nacional de Política Fazendária, o Confaz. Nele sentam-se todos os secretários das Finanças e o ministro da Fazenda ou seu representante autorizado. Todas as suas decisões são tomadas por unanimidade. Portanto, se o Ministério da Fazenda não quisesse, essa variação não existiria.

ENTREVISTA

Evaldo Cabral de Mello

(65 anos, historiador, autor de "Negócio do Brasil")

Os descendentes da família real brasileira estão reclamando da figura de d. João 6 apresentado como bestalhão na minissérie "O Quinto dos Infernos". Esse d. João cretino, gordo, preguiçoso e glutão contrasta com os fatos. Durante o vendaval napoleônico, o rei da Espanha foi deposto, o da Prússia fugiu e o da Holanda também. O da Suécia pediu a Bonaparte que nomeasse um general para ficar com a coroa. Outros cinco monarcas ficaram desempregados, e Napoleão acabou preso em Santa Helena. O bestalhão foi o único que continuou rei. Quem o senhor acha que é o verdadeiro d. João 6?
- Eu não sou crítico de minisséries de televisão e cada um tem o direito de usar a cena histórica para produzir obras de ficção. Isso vale tanto para o romance "Guerra e Paz", de Leon Tolstói, como para outros trabalhos. Infelizmente, no Brasil há mais propagação de anedotas do que de conhecimento histórico. Há pouco tempo, os ingleses fizeram um filme sobre a loucura de Jorge 3. Foi um sucesso e deu uma idéia de sua vida como doido, mas os ingleses sabem quem foi Jorge 3. No Brasil, isso não se dá. Não foi à toa que Stanislaw Ponte Preta gozou essa situação no "Samba do Crioulo Doido", no qual Tiradentes casa com d. Leopoldina, a mulher de d. Pedro 1. "O Quinto dos Infernos" é um espetáculo divertido, com um humor meio português, patusco. Revela muito mais a cabeça dos telespectadores do século 21 do que a realidade do início do 19. Seu d. João é caricato, agitado e cretino demais. Ele era um abúlico que gostava de ficar ouvindo canto na capela real, mas tinha compostura. Um escritor inglês, William Beckford, conheceu-o em Portugal e descreveu-o como um homem de algum preparo, que se expressava muito bem e tinha senso de humor. Ele acabou carregando nas costas a visão abagunçada que o regime colonial português produziu na imaginação popular. Na preguiça, na dissimulação e na abulia, d. João empurrava os problemas com a barriga. Em certas situações, a procrastinação pode tornar-se uma virtude. É uma característica que depois você vai encontrar em d. Pedro 2, seu neto, e em Getúlio Vargas. Eles não eram preguiçosos, mas empurravam com a barriga.
De onde saiu a caricatura?
- A origem não sei, mas sem dúvida o fato de ele ser corno foi decisivo. Numa sociedade patriarcal, o patriarca-mor, que era o rei, não podia sê-lo sem grave prejuízo para a massa de patriarcas menores. Esse homem teve uma vida dura. A mãe era doida. O irmão José, preparado para reinar, morreu. A mulher tentou declará-lo idiota para lhe tomar o trono. Com a mãe, ele foi muito correto. Só aceitou ser coroado rei depois que ela morreu, em 1816, apesar de ela estar incapacitada desde os últimos anos do século 18. Ele sabia que o segundo filho de Carlota, d. Miguel, não era dele. Dizia-se que era do marquês de Marialva. Vivia completamente separado da mulher. Com tudo isso, reinou de forma mais ou menos incruenta. Na sua placidez, havia esperteza. Um dia, um português viu-o passar numa sege e gritou: "Viva o Congresso". Ele não fez nada. Limitou-se a resmungar: "Viva, mas eu vou de sege e tu vais a pé". Nessa lengalenga, anexou a Banda Oriental, que hoje é o Uruguai, e a Guiana, que depois negociou com a França. Sua vinda para o Brasil, realização de uma idéia formulada pela primeira vez por volta de 1750, trouxe para cá a máquina burocrática portuguesa. Não se pode dizer que tenha fundado o Estado nacional ou uma classe dirigente. Faltou-lhe a decisão de institucionalizar o Império. Mesmo assim, de sua vinda resultou a criação de um corpo de funcionários públicos que acabou proclamando a Independência do Brasil. Hoje em dia, fala-se mal dos funcionários, mas quem fez a nossa independência foram eles.
- A que o sr. atribui a persistência dessa imagem de idiota?
Não sei a exata razão. O que me impressiona é que boa parte das caracterizações de d. João como cretino parta do Sudeste brasileiro. O Brasil nada deve a d. João. Quem lhe deve são exatamente as elites do Rio, de São Paulo e de Minas, pois foi ele quem começou o processo de espoliação fiscal das províncias do Norte. Imagine que d. João cobrava do povo do Recife, que vivia às escuras, uma taxa destinada a custear a iluminação do Rio de Janeiro. É uma elite ingrata. Não deixa de ser irônico que eu, um pernambucano, esteja aqui a defender alguns aspectos da obra de d. João 6 diante de um espetáculo produzido no Rio de Janeiro, uma cidade que tanto lhe deve. Da Biblioteca Nacional ao Jardim Botânico. Se d. João tivesse ficado em Salvador, o Rio seria hoje uma cidade um pouco melhor do que Santos.


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