São Paulo, domingo, 20 de janeiro de 2002

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ELIO GASPARI

A república dos banheiros e dos vestiários

No mesmo dia em que o candidato do PSDB, ministro José Serra, proclamava que nada deve ser feito "contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade", o repórter Leandro Fortes revelava que a 500 metros do gabinete de FFHH, no terreno do Palácio do Planalto, há dois vestiários para a turma que joga tênis ou bate bola nas quadras desse centro de lazer exclusivo, sustentado pela Viúva. Um, o 05, para "supervisores" e funcionários classificados como DAS 1, o nível mais baixo da hierarquia dos cargos de confiança, com direito a R$ 1.500 mensais. Outro, o 06, para a turma do andar "acima", com DAS 2 ou mais. Ainda não houve economista capaz de associar a desordem monetária ao uso de chuveiros e latrinas pela choldra. Logo, se um peladão DAS 4 toma banho junto com um DAS 1, isso não ameaça a estabilidade.
Na sexta-feira, a administração do Palácio acabou com essa segregação. O grave é que isso só aconteceu depois que Leandro Fortes contou o caso e mostrou as fotos. Durante mais de sete anos, FFHH e seus heróicos colaboradores desempregaram milhões de pessoas, sumiram com meio milhão de postos de trabalho na indústria de São Paulo. Nenhum desses maganos percebeu, ao cruzar as portas do vestiário 06, que uma tabuleta vedava a entrada dos funcionários de menor hierarquia.
Exatamente como faziam os clubes de futebol no início do século, vedando a entrada dos jogadores nas áreas sociais. Pior: os cartolas do Fluminense Football Club não jogavam bola junto com a choldra. Os maganos do Planalto jogam seu futebol de salão com a patuléia servidora e, na hora de tomar banho, tomam rumos diferentes. Talvez acreditem que um contínuo não deva ver um ministro pelado. Quem sabe não queiram revelar aos subordinados o que fazem num banheiro, como se as principais necessidades que demandam o uso de uma privada fossem exercidas de uma maneira por um DAS 4 e de outra por um DAS 1. (A história brasileira ensina que, em pelo menos uma dessas funções fisiológicas, a produção do andar de cima supera, de muito, a do de baixo.)
O governo tem dois argumentos para explicar o caso. Primeiro, FFHH não sabia disso. É inteiramente verdadeiro. Segundo, o centro esportivo fica numa área administrada por militares, e esse sistema segue o padrão dos quartéis. É falso. O Planalto não é quartel. Além disso, em matéria de necessidades militares, Napoleão Bonaparte, um dos maiores generais de todos os tempos, nas suas campanhas valia-se de um sanitário exclusivo, porém comum. Já lord Cardigan, um dos responsáveis pelo desastre da carga da brigada da cavalaria ligeira, na Guerra da Criméia, foi para a batalha de Balaclava levando seu iate. Só um néscio não percebe que, se esse foi o critério, disfarçaram-no por meio de uma demarcação baseada na hierarquia da administração civil.
A exclusividade sanitária do Planalto é produto da discriminação social e do descaso dos maganos que frequentaram o vestiário 06 fingindo que nada havia de anormal no sumiço da choldra depois dos jogos. Um motorista que vai à quadra e é obrigado a se trocar no vestiário 05 pode ganhar em torno de R$ 1.000 e outros R$ 1.150 de gratificação pelo cargo de confiança (o DAS).
No ano passado, esse brasileiro desembolsou R$ 1.548 de Imposto de Renda. Trabalha, paga impostos, mas não pode usar o chuveiro e a privada dos DAS 4. FFHH e a turma dos esportes do Planalto recebem seus vencimentos de uma patuléia de 170 milhões de trabalhadores. Deles, pelo menos 165 milhões ganham menos que o exigido para o acesso ao vestiário 06.
Nunca é demais lembrar que as tabuletas de banheiros foram a marca da segregação racial americana. Retiradas as tabuletas do Planalto, pode-se pensar que o caso está resolvido. Coisa nenhuma. Os responsáveis pela sua existência devem ser postos no olho da rua. Demitidos. Em 1999, o ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, perdeu o cargo por ter dito que, na busca pelo desenvolvimento, "o excesso de cautela, a essa altura, será outro nome para a covardia". Se isso foi motivo para desempregar um ministro e organizar o sistema de vestiários segregados não o é para honrar o seu gerente com a experiência do desemprego, percebe-se que o negócio é outro: tudo pela estabilidade, nada pela igualdade.


Baixaria

O PFL continua operando na faixa da baixaria. Depois de ter feito um programa de televisão em que chamava os petistas de "petelhos", a governadora Roseana Sarney disse no seu último programa que o próximo presidente não pode ser apenas "o presidente da república do Maranhão, da república de São Paulo, da república da CUT e da república do MST".
Noves fora que isso não quer dizer nada, e mesmo levando-se em conta as ligações do PT com a CUT e o MST, a lógica recomendaria que ela tivesse dito outra coisa: "O próximo presidente não pode ser apenas o presidente da república da Federação Brasileira das Associações de Bancos (a Febraban) ou o presidente da república da CUT". Seria mais sincera, veraz e didática.


ENTREVISTA
Antonio Cordeiro de Azevedo

(50 anos, mineiro de São Sebastião do Maranhão, faxineiro há 26 anos em São Paulo)

- O senhor passou boa parte da sua vida limpando banheiros. Há alguma diferença entre os banheiros frequentados por pessoas que ganham pouco e por pessoas que ganham mais?
- Eu limpo banheiros desde que comecei a trabalhar como faxineiro. Limpei os do Banco do Brasil por 13 anos e os da Eletropaulo por nove. As pessoas fazem muita sujeira. Cospem no chão, até na parede. Deixam papel usado fora do cesto. Não dão a descarga direito e raramente limpam a pia. Nos vestiários, deixam sapatos fedorentos debaixo do armário. Já tive chefe que mandou jogar fora. Eu acho que o pessoal pensa assim: tem faxineiro, posso sujar. Agora, quando o senhor quer saber qual banheiro é pior de limpar, é o do pessoal que ganha mais. Eles não estão nem aí.
- Nem aí como?
- Fazem mais sujeira. Deixam pasta de dente na pia, sabão no espelho. Vou lhe dizer que até na descarga tem uma diferença. Quando urinam, é igual. Sempre tem gente que vai embora e deixa a coisa lá. No cocô é difícil alguém não dar a descarga, mas tem o diabo da meia descarga. O sujeito aperta o botão e não confere. Vai embora e deixa um pedaço do negócio lá. Isso tem mais em banheiro de gente que ganha bem do que no daqueles que ganham pouco. Eu acho que eles fazem as coisas com pressa. Tem faxineiro para limpar. No Banco do Brasil, os banheiros do sexto andar e do 13 eram de gente mais pobre. O do quinto andar, onde ficavam os chefões, era mais sujo. Na Eletropaulo, a mesma coisa.
- O que o senhor acha da separação de vestiários no Palácio do Planalto?
- Sou a favor. Vai ser uma definição. Vai-se ver qual é mais avançado. Eu não acho que separaram os vestiários por motivo de sujeira. O negócio é que eles não querem se misturar. Por esse lado é bom. A gente vai ver qual vestiário é o mais sujo. Eu concordo com isso aí.


Boa notícia
Depois que três administrações sucessivas deram a devida atenção à Velha Lapa carioca, transformando-a numa bem-sucedida experiência de recuperação de um centro decadente, o restaurante Capela impôs uma novidade à boa comida do Rio. Vende uma travessa de javali capaz de derrotar o deputado Delfim Netto. (Sua marca: um dúzia de ostras como entrada para o espaguete.) Com batata à francesa, chope e café, o javali custa R$ 40.
O Capela é um dos mais velhos restaurante do pedaço. Funcionava no velho largo demolido. Entre seus clientes esteve o sambista Ismael Silva, com seus inesquecíveis ternos brancos.


A Receita bate recordes, mas tunga até importação de livros

Sendo presidente da República, o professor Fernando Henrique Cardoso, titular aposentado da Universidade de São Paulo e honoris causa das universidades Stanford, de Cambridge e de Moscou, de três, uma -ou todas as três:
1) o governo quer dificultar a importação de livros por brasileiros; 2) prefere favorecer as redes de venda internacionais;
3) não tem consideração pelos contribuintes nacionais que se dirigem às autoridades competentes.
No dia 28 de novembro do ano passado, cinco livreiros do Rio de Janeiro (Argumento, Interciências, Leonardo da Vinci, Travessa e Padrão) escreveram a cinco autoridades reclamando dos absurdos da legislação que regula a importação de livros. As cartas foram para Sergio Amaral (ministro do Desenvolvimento), Everardo Maciel (secretário da Receita) e três outros santos menores. Nenhum deles dignou-se a responder.
Em tese, a importação de livros está imune de impostos. Na prática, as grandes livrarias virtuais do mundo, como a Amazon, estão isentas de trato com a máquina de tomar dinheiro que o governo brasileiro mantém. Num exemplo: sujeito quer comprar o livro "Genome", de Matt Ridley. É uma tentativa bem-sucedida de contar a história dos genes humanos. Ele vai ao computador, entra na Amazon, acha o que quer e, em menos de cinco minutos, encomenda o volume. Pagará, com o seu cartão de crédito, o equivalente a R$ 85 e receberá a encomenda num prazo de cerca de um mês. Os livros comprados da Amazon estão de fato isentos de impostos.
Os livreiros nacionais estão noutra situação. Uma instrução normativa da Receita Federal equipara-os às pessoas físicas, obrigando-os a um teto de US$ 3.000 nas importações pelo sistema de declaração simplificada. Valeria a pena pedir a Matt Ridley que estudasse o código genético da cabeça do fiscocrata que acha que uma pessoa física e outra, jurídica, importando US$ 3.000 de livros podem ser coisas semelhantes. Com esse dinheiro compram-se algo como 150 volumes. Por mais que sejam devoradores de livros, os doutores Everardo Maciel e Armínio Fraga levam um ano para sapear uma estante desse tamanho.
Além de estarem submetidas a um teto absurdo, as livrarias brasileiras pagam taxas de armazenagem na Infraero (os clientes da Amazon nada pagam ao correio nacional) e honorários de despachante, mais o registro da importação e o contrato de câmbio da transação. Numa importação de 600 livros, no valor de R$ 14 mil, a taxação indireta lhes custa em torno de R$ 660, noves fora o contrato de câmbio. Nessa tunga adicional, são obrigadas a pagar ao banco cerca de R$ 150 para cada operação com o dólar. Tanto faz que a transação seja de R$ 1 milhão ou de R$ 100. Se a importação dos 600 livros tem três fornecedores, a brincadeira custa R$ 450. Ao final da conta, o livreiro acaba pagando algo como 8% sobre o valor da importação. Depois, tomam-lhe mais 3,65% de Cofins. A Amazon paga zero.
O Banco Central propôs aos livreiros que se comprometessem a não comprar livros por meio de cartões de crédito. Gracinha. Fazem isso quando sabem que existem empresas nos Estados Unidos alugando caixas postais e oferecendo aos brasileiros o que eles quiserem. De sua cela no Acre, o ex-deputado Hildebrando Pascoal (ex-PFL) pode comprar um catálogo de serras elétricas para acompanhar a tecnologia de seu instrumento de trabalho. Quando um livreiro faz a mesma coisa, o governo vê nele um perigoso traficante, provável esquartejador de rivais.
Os sábios do Banco Central e da Receita Federal dispõem de milhares de explicações para isso. Isso não impede que respeitem as normas da boa educação e respondam à carta dos livreiros. Podem fazê-lo sem susto. Já houve casos de transporte de cocaína em avião da FAB e de morte de integrante de comitiva presidencial por excesso de consumo de pó em viagem oficial à Colômbia. Contrabando em compras de livrarias, não.


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