São Paulo, domingo, 21 de julho de 2002

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LIGAÇÕES PERIGOSAS

José Carlos Martinez e Augusto Farias, irmão do ex-tesoureiro de Collor, confirmam dívida; ambos apóiam ex-presidente

Coordenador de Ciro deve à família de PC

MÁRIO MAGALHÃES
DA SUCURSAL DO RIO

As relações financeiras do coordenador-geral da campanha de Ciro Gomes (PPS) à Presidência, deputado José Carlos Martinez (PTB-PR), com a família de Paulo César Farias não são um fato do passado: ainda hoje Martinez paga parcelas de uma dívida de milhões de reais a parentes de PC, o ex-tesoureiro de Fernando Collor assassinado em 1996.
As duas pontas do negócio o confirmaram à Folha: o próprio Martinez e o seu colega na Câmara Augusto Farias (PPB-AL), irmão de PC. Ambos apóiam Collor (PRTB) na campanha para governador de Alagoas. O vice é do PTB, que na eleição presidencial integra a coligação pró-Ciro.
Os parlamentares afirmam que o suporte da direção nacional do PTB, partido presidido por Martinez, à manutenção da aliança a favor de Collor nada tem a ver com negócios particulares entre eles. Há divergências no relato sobre outros aspectos.
Martinez e Augusto foram procurados para comentar uma declaração do alagoano à Folha em 99. Foi uma entrevista sobre os homicídios de PC e sua namorada, Suzana Marcolino, pelos quais o irmão do ex-tesoureiro seria indiciado como suspeito de co-autoria semanas depois (o caso hoje está parado na Justiça). Augusto Farias falava sobre o casal de filhos de PC, dos quais era o tutor.
""A família Martinez, cheia de velhacos, está com R$ 3 milhões dos meninos [os sobrinhos". Estamos executando judicialmente o José Carlos Martinez, o irmão dele, Flávio, e o pai, Oscar. Venderam a CNT [rede de TV", da qual Paulo César era sócio, e não pagaram aos meus sobrinhos."
À época, Martinez confirmou dívida e valor (equivalia a US$ 1,6 milhão), mas disse que se tratava de empréstimo de PC, que não seria um sócio oculto da emissora. Reafirmou a versão na sexta-feira. Augusto disse não saber mais do que se tratava.
Ambos contam que houve parcelamento para o pagamento da dívida. Conforme Augusto, ""foi pago muito pouco". Segundo Martinez, ""foi pago um monte". Não foram revelados valores do saldo, recalculado com juros, nem a exata quantia entregue por PC a Martinez no começo dos anos 90.
Em contradição com o que Augusto disse sobre venda da TV há três anos, Martinez afirma que sua família ainda controla a CNT. Ele diz ser sócio minoritário.
O irmão de PC conta que o parcelamento e a atualização da dívida tiveram como fiadores ""o pai [de Martinez", a mãe, o Flávio [irmão", a esposa do Flávio e a esposa do Martinez".
Os deputados não narraram outros negócios entre PC e Martinez. A revista ""Veja" da semana passada informou que a Receita Federal, num levantamento sobre o petebista, não encontrou registro de nenhum empréstimo entre ele e o ex-tesoureiro.
Martinez disse à CPI que investigou o esquema PC que comprara a emissora de TV com a ajuda de um empréstimo, que teria sido pago, de PC Farias. Martinez presidiu o PRN -o então partido de Collor- no Paraná durante o governo do seu amigo.
O esquema PC foi um associação dirigida por Paulo César Farias para auferir ganhos ilícitos no governo Collor. A CPI criada para investigar o grupo serviu de base para o afastamento do presidente.
O apoio de Martinez e do seu PTB à primeira eleição disputada por Fernando Collor desde que seus direitos políticos foram restabelecidos levou inimigos de Ciro Gomes a reafirmarem ver nele semelhanças com Collor. O PPS -partido de Ciro- alagoano se uniu à coligação pró-Collor, mas a direção nacional quer sua saída.
Augusto Farias diz que sua presença na aliança é uma ""coincidência". A opção seria pragmática: ""É a chapa que dá mais chances de eu me reeleger".
O coordenador-geral da campanha de Ciro sublinha que o acerto para pagar a dívida ocorreu em 1999 -Augusto não soube dizer quando foi. A Folha não teve acesso a documentos.
""Nem sonhávamos que iríamos estar juntos agora", afirma Martinez. ""Eu e o Augusto somos muito amigos. Tivemos uma divergência naquela época [sobre a dívida", mas acertamos as contas."
Ele diz que não influenciou o comportamento do PTB de Alagoas. E que a união a Collor foi a maneira de fortalecer a bancada de 14 deputados estaduais petebistas na busca pela reeleição.
Inicialmente, o PTB contava com Collor como candidato a senador na coligação. Depois, o ex-presidente decidiu enfrentar o governador Ronaldo Lessa (PSB).
""A questão é que em Alagoas só há duas correntes", diz Martinez. ""Mais da metade dos prefeitos é do PTB. Como é que se fala para essa turma: "Vocês vão ficar sem candidato a governador?"'



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