São Paulo, terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

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TERRA SEM LEI

Falta prender suposto mandante, o fazendeiro Bida, segundo a polícia

Polícia captura Eduardo, 3 suspeito de morte de freira

Jefferson Coppola/Folha Imagem
Fogoió, que confessou ontem ter atirado em Dorothy, chega escoltado por policiais em Altamira


KÁTIA BRASIL
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ALTAMIRA

A Polícia Civil prendeu ontem o terceiro acusado de participação na morte de Dorothy Stang, 73, em Anapu (PA). Uilquelano de Souza Pinto, o Eduardo, foi preso ontem em Belo Monte (PA). Ele também é suspeito de ter atirado na freira e passaria a noite na cadeia de Altamira.
Também ontem, a Polícia Civil indiciou Rayfran das Neves Sales, 27, o Fogoió, acusado de ter atirado em Dorothy. Em depoimento, segundo a polícia, Fogoió confessou ter feito os disparos e disse que Eduardo também atirou em Dorothy. Fogoió não estava acompanhado por um advogado.
Ele foi indiciado por homicídio duplamente qualificado (pena de 12 a 30 anos de prisão).
O depoimento foi presenciado por C.B.C., 49, testemunha ocular do assassinato de irmã Dorothy e que acusa Fogoió da autoria dos disparos. Fogoió foi preso na noite de anteontem, por volta das 19h, após sete dias foragido.
Ontem, depois do depoimento na Polícia Civil, Fogoió foi submetido a exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal e levado para prestar depoimento na Polícia Federal. Cerca de 50 pessoas se aglomeravam em frente ao prédio da PF em Altamira (PA).
Ele passaria a noite na cadeia da cidade, onde está preso Amair Feijoli Cunha, acusado de co-autoria. Ainda está foragido o fazendeiro Vitalmiro de Moura Bastos, o Bida, suposto mandante, que teve prisão preventiva decretada.
O advogado Augusto Septimio, que defende Vitalmiro, descartou ontem a possibilidade de ele se apresentar à polícia antes da conclusão dos inquéritos. "Ele não vai se entregar enquanto não estiverem concluídos os inquéritos."
Septimio afirmou também que a decisão da Justiça de determinar sigilo prejudica a defesa, "mas, por outro lado, facilita, pois vinham sendo veiculadas informações conflitantes, inclusive de depoimentos à Polícia Civil".

Sigilo
O juiz substituto da comarca de Pacajá (PA), Lauro Alexandrino, decretou ontem segredo de Justiça no inquérito da Polícia Civil que investiga a morte da freira.
Entretanto, por causa da contradição entre os depoimentos, a Polícia Civil anunciou que hoje deve pedir a revogação do decreto e, caso ela seja concedida, divulgará junto com a PF o conteúdo das declarações dadas por Fogoió.
O advogado criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, classificou a decisão de decretar segredo de Justiça como "antidemocrática". "Não entendo que o sigilo neste caso devesse ter sido decretado. Ao contrário, [o caso] envolve direitos humanos, uma situação trágica do país... É uma decisão antidemocrática." Ele considera estar havendo banalização do segredo de Justiça. "Hoje em dia, em casos de grande repercussão, é quase uma regra."
Para o presidente da seção paulista da OAB, Luiz Flávio Borges D'Urso, a decretação do sigilo durante uma investigação deve ser exceção, não regra. "Cabe, no entanto, às autoridades responsáveis pelo caso a avaliação sobre a necessidade do sigilo."
Segundo o procurador da República Celso Três, o sigilo só é necessário para proteger o andamento da investigação, "não para proteger os investigados."

Colaboraram SILVIO NAVARRO, da Agência Folha, a Reportagem Local e a Redação

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