São Paulo, domingo, 23 de setembro de 2007

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DEPOIMENTO

Eles não levaram na esportiva

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Dia 22 de setembro, há 30 anos. Mais uma vez, estudantes realizavam ato público contra a ditadura. Esse era no campus da PUC de São Paulo e comemorava um encontro clandestino realizado naquela tarde, visando reconstruir a UNE. Na época, isso era um golaço contra o governo dos generais. Eles não levaram na esportiva.
Eram 21h50 quando, dos dois lados da rua da PUC, a tropa de choque chegou. Cavalos, golpes de cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Gritos e medo. Gente ferida.
Os estudantes tentaram o expediente de outras manifestações: "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas..." Até aquele 22 de setembro, era só entoar o primeiro verso do Hino Nacional e a tropa de choque, por encanto, parava de bater. Mão no peito, era uma cantoria fervorosa enquanto se estudavam as rotas possíveis de fuga. Até o indefectível "...Pátria amada, Brasil!" -e a porrada recomeçava.
Mas, naquele dia, o coronel Erasmo Dias nem isso permitiu. Ele não queria dispersar o pessoal. Queria prender todos. Queria enquadrar na LSN. Queria acabar com a rebelião.
A saída foi correr para dentro da universidade. Até aquele dia, a tropa de choque respeitava as igrejas, que eram como um pique na correria das manifestações. Natural, pois, que a PM respeitasse o território de uma universidade católica. Mas não.
A tropa de choque varreu cada palmo do prédio. Arrombando, espancando, desentocando estudantes escondidos em armários, banheiros, debaixo de mesas, trancados em salas.
Lá pelas 22h30, 854 estudantes estavam quietinhos, sentados em um estacionamento que existia na frente da PUC. Cercavam-nos os homens do choque. Erasmo Dias falava aos rendidos com um megafone. Policiais formaram um corredor polonês, pelo qual os presos foram obrigados a passar, antes de entrar em ônibus transformados em camburões coletivos. Destino: Batalhão Tobias de Aguiar, hoje sede da Rota.
Homens e mulheres ficaram em quadras separadas. Questionário, fichamento, interrogatório, fotografia, revista. "Seu pai sabe que você participa do movimento estudantil?" era uma das perguntas. Na quadra das mulheres, um cantinho foi usado para descarte de material clandestino. Formava-se uma rodinha, uma pessoa no meio. Quando o grupo se dispersava, lá ficava um livro de Trótski, outro de Lênin, um panfleto de organização clandestina, gibi do Henfil, encarte do disco do Chico Buarque.
Por volta da meia-noite, policiais de óculos ray-ban começaram a servir aos presos toddy batido e sanduichinhos de presunto e queijo. Ninguém dormiu. Parentes aflitos concentravam-se na porta do quartel em busca de notícias. De manhã, começaram a soltar os presos. Cada um que saía, recebia um abraço apertado e muitas palmas. Meu pai estava lá.


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