São Paulo, domingo, 10 de setembro de 2000

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ARQUEOLOGIA
Para especialista, descoberta de palácio ajudará a entender a vida política da civilização pré-colombiana

Ruína na Guatemala revela nova face maia

France Presse
Pesquisadores observam um palácio maia notavelmente conservado, com 12 séculos de idade


JOHN NOBLE WILFORD
DO "THE NEW YORK TIMES"

Arqueólogos encontraram um dos maiores e mais belos palácios da cultura maia, em meio aos vestígios de uma antiga cidade conhecida como "Lugar de Serpentes", na Guatemala.
Ao descrever o palácio, que data do século 8, Arthur Demarest, arqueólogo da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, EUA, e líder da equipe que anunciou a descoberta na quinta-feira, disse: "Desde a virada do século passado ninguém encontrava nada parecido com isso. O mais incrível desse local é que a maior parte do palácio enterrado está intacta".
Demarest disse que o palácio -que tem 170 cômodos e três andares- em Cancuén rivaliza em tamanho e preservação com os prédios da acrópole de Tikal, um dos maiores sítios que representam o poder maia na Guatemala. Expedições realizadas anteriormente subestimaram o tamanho e a grandiosidade do palácio e da cidade em volta-um próspero centro de comércio e artesanato.
As primeiras escavações em Cancuén foram feitas nos últimos meses pelos arqueólogos liderados por Demarest e Tomás Barrientos, da Universidade do Vale, Guatemala. A expedição é patrocinada pelo Instituto de História e Antropologia da Guatemala, pela National Geographic Society e pela Universidade Vanderbilt.
"É uma descoberta extraordinariamente importante", disse David Freidel, especialista em estudos sobre a civilização maia da Universidade Metodista, Dallas. "Há tempos um complexo de tal relevância não vem à tona. Uma investigação científica das ruínas nos ajudará a entender a vida política na última fase clássica do período maia."
O auge do poder da civilização maia na América Central e no México-conhecido como período clássico- foi de 250 a 900. De acordo com as inscrições, Tah ak Chaan, que terminou a construção do palácio, governou Cancuén por 50 anos, a partir de 740.
Nessa época, segundo Freidel, o centro de atividade da vida política e das cerimônias oficiais deixou as praças livres e passou a localizar-se nos palácios.
Até mesmo um simples estudo preliminar do sítio e seus monumentos já produziu resultado surpreendente: não há indicações de que os governantes tenham se engajado em guerras de maior relevância com seus vizinhos. Também não há sinal da existência de pirâmides, construções típicas de manifestações religiosas, uma das raízes do poder maia.
A falta de construções piramidais foi uma das razões para que outros arqueólogos ignorassem as ruínas e deixassem de investigar o real tamanho do palácio.
Segundo Demarest, essas descobertas por si só podem incitar os estudiosos a reconsiderar algumas idéias sobre a civilização maia. Essa era uma cidade que aparentemente prosperou por centenas de anos sem que houvesse guerra ou uso da religião como fonte do poder dos reis.
Diferentemente de outras cidade maias, Cancuén parece ter usado sua posição estratégica, no pé das terras altas, rica em jade e obsidiana (vidro vulcânico) e outros bens de troca valiosos, para exercer seu poder comercial sobre as terras baixas. Demarest disse que a cidade deve ter sido maior, mais rica e poderosa do que se pensa. Há sinais de que os governantes tenham se dedicado ao comércio de modo intenso.

Jade nos dentes
Algumas das primeiras escavações revelam que a classe média era relativamente rica e que havia oficinas de artesãos para produzir bens de elite e para o comércio.
Segundo Demarest, há jade por toda parte. Encontraram uma jovem de classe média enterrada com dez pedras de jade cravadas nos dentes. Trabalhadores eram enterrados com miniaturas de cerâmica e belos penteados.
Em outras escavações, encontraram grandes quantidades de pirita (marcassita). O material era usado para fazer espelhos, um dos objetos mais estimados pela elite.
Os arqueólogos estão planejando aumentar a equipe com novos pesquisadores e escavadores no final da estação das águas, em fevereiro. A região é livre de guerras civis, mas o governo da Guatemala tem pouca presença na área. O lugar ainda é um pouco sem lei, segundo Demarest.
A expedição mobilizou a população local da vila mais próxima para vigiar o sítio da descoberta.



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