São Paulo, quarta-feira, 02 de março de 2005

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JUVENTUDE ENCARCERADA

Desde janeiro, instituição teve quase 50% dos foragidos e das rebeliões de todo o ano de 2004

Febem registra 7 fugitivos por dia em 2005

Fernando Donasci/Folha Imagem
Internos recapturados após fuga em massa em unidade da Febem na Vila Maria, em São Paulo


GILMAR PENTEADO
DA REPORTAGEM LOCAL

Em um período de apenas 60 dias, a Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) de São Paulo registrou em 2005 um número de rebeliões, de tumultos e de fugitivos equivalente a quase metade das ocorrências verificadas em todo o ano passado.
Os registros de 1 de janeiro até a tarde de ontem também chegam a superar o total de ocorrências de anos inteiros, como 2002 e 2001. Das estatísticas dos últimos dois meses, a última ocorrência foi registrada ontem pela manhã, no complexo Vila Maria (zona norte de SP), quando 39 internos fugiram. Oito funcionários e cinco adolescentes ficaram feridos.
A alta concentração de ocorrências em 2005 coincide com um período que incluiu prisões de funcionários por tortura, demissões em massa e a tentativa de aplicação pela Febem de um projeto de reformulação administrativa.
"Se colocássemos todos os internos na tranca nesses dois meses, não teríamos nenhuma rebelião ou fuga. Mas também não estaríamos contribuindo para a recuperação desses adolescentes", afirmou ontem o secretário estadual da Justiça e Defesa da Cidadania e também presidente da Febem, Alexandre de Moraes (PFL). "É a mudança mais radical da história da Febem e seríamos ingênuos se achássemos que não haveria problemas", completou.
De janeiro até a tarde de ontem, as unidades da fundação no Estado de São Paulo registraram 13 rebeliões -uma a cada cinco dias. Esse número representa 46,4% das rebeliões ocorridas em todo o ano de 2004. Naquele ano, foram 28 rebeliões, uma a cada 13 dias.
Essa concentração também é verificada no número de fugitivos da instituição. Até ontem, 412 internos conseguiram escapar das unidades -média de 6,87 por dia, equivalente a 44% de todos os fugitivos de 2004. Nos 12 meses do ano passado, 933 adolescentes conseguiram fugir, uma média de 2,56 por dia. A taxa de fugitivos recapturados é de cerca de 50%.
O número de tumultos -ocorrências nas quais não há refém nem destruição das unidades, segundo critérios adotados pela Febem- é outro item das estatísticas que reforça a concentração de casos no início de 2005.
Em janeiro e fevereiro, as unidades registraram 19 tumultos, o que equivale a exatamente metade das ocorrências desse tipo verificadas em todo o ano passado.

Fugas
Os 412 fugitivos das unidades neste ano superam os números totais de 2001 (122 internos fugitivos) e de 2002 (103). Em 2003, 766 internos conseguiram escapar.
A explicação para os números de 2005 está no grande número de fugitivos por episódio. Nos últimos meses, uma média de 23 internos conseguiu escapar por fuga. Essa média, em todo o ano de 2004, foi de 15 adolescentes.
Ontem pela manhã, 39 internos conseguiram escapar de uma das unidades do complexo da Vila Maria. Segundo a assessoria da Febem, eles usaram paus e facas improvisadas para tentar fugir pela frente da unidade.
Houve confronto. Oito funcionários da Febem e cinco internos foram atendidos no pronto-socorro do Hospital Tatuapé. A maioria apresentava ferimentos leves. Um funcionário, no entanto, sofreu traumatismo craniano, mas apresentava quadro estável e permaneceu em observação, segundo a assessoria de imprensa do hospital.
Depois do confronto, os fugitivos escaparam pelos fundos da unidade. Usaram uma escada, que estava sendo utilizada para a instalação de arames nas muralhas, e cordas improvisadas.
Do grupo de 39 fugitivos, apenas oito continuavam foragidos até o começo da noite de ontem, segundo a Febem. Na fuga, internos roubaram dois carros. Em um dos casos, adolescentes ameaçaram o motorista de uma Kombi com paus e levaram o veículo, mas foram presos pela Polícia Militar logo em seguida.
Em outro caso, um interno, com mais de 18 anos, rendeu a motorista de um Palio com uma faca. Levava a mulher como refém quando também foi surpreendido pelos policiais.
Para o sindicato dos funcionários da Febem, a fuga de ontem, na Vila Maria, e a concentração de ocorrências de registros de tumultos, fugas e rebeliões nos últimos dois meses mostra que o projeto de restruturação da fundação está equivocado. "Substituíram funcionários antigos por novatos, sem qualificação. Só poderia ocorrer isso", disse Edson Brito Silva, diretor do sindicato.


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