São Paulo, terça-feira, 03 de julho de 2007

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Policial é fotografado ao receber propina

O Ministério Público apreendeu ontem R$ 168 mil na casa de Fernando Barreto Ferrara, chefe dos investigadores do 15 DP de SP

Promotoria afirma que ele cobrava para permitir que 500 caça-níqueis ilegais funcionassem; investigação começou há um ano e meio

ANDRÉ CARAMANTE
GILMAR PENTEADO
DA REPORTAGEM LOCAL

Após fotografar um dos chefes de investigadores da Polícia Civil de São Paulo, Fernando Barreto Ferrara, recebendo propina para liberar o funcionamento de caça-níqueis, o Ministério Público revistou ontem a casa do investigado e apreendeu R$ 168 mil e U$ 1.123 no local.
Os promotores chegaram à casa do policial, em Pirituba (zona norte de São Paulo), após o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) infiltrar, há cerca de um ano e meio e com autorização judicial do Dipo (Departamento de Inquéritos Policiais), um agente do serviço de inteligência no esquema de corrupção.
O agente do Gaeco se passou como um novo "maquineiro" (explorador de caça-níqueis) que queria atuar na região de Santo Amaro e negociou diretamente com Ferrara o pagamento de R$ 200 em propina para colocar quatro máquinas em funcionamento na região.
O pagamento foi fotografado, mas Ferrara, à época chefe dos investigadores da 6 Seccional Sul de Polícia, responsável pela coordenação de 13 delegacias, não foi preso porque o Gaeco queria descobrir outros integrantes do esquema.
Atualmente, ele chefia investigadores do 15 DP, que atende a área nobre do Itaim Bibi, também na zona sul.
Um outro investigador, Herbert Gonçalves Espuny, também foi acusado de integrar o esquema de concussão (extorsão cometida por empregado público no exercício de suas funções) e na formação de quadrilha para explorar o jogo.
Ferrara e Espuny foram procurados pela Folha, mas não responderam aos pedidos de entrevista. A Corregedoria da Polícia Civil diz que, apesar dos "fortes indícios" de irregularidade, eles serão, por enquanto, só transferidos das funções.
As investigações do Gaeco apontam que Ferrara era o "recolhe" (cobrador) da propina dos donos dos caça-níqueis, mas que nem todo o valor arrecadado ficava com ele, já que policiais mais graduados da Polícia Civil também são suspeitos de integrar o esquema.
Escutas autorizadas pela Justiça apontam diversas referências a pessoas tratadas por "doutor" nas conversas.
A Promotoria apurou que Ferrara e as pessoas do esquema recebiam ao menos R$ 25 mil todo dia 30 (R$ 50 por máquina) de pelo menos 500 equipamentos.
Além da propina para Ferrara, os donos desses caça-níqueis também pagariam, segundo a Promotoria, para policiais do 11 DP (Santo Amaro).
No dia 15 de cada mês, os policiais do 11 DP cobravam R$ 35 por máquina (cerca de R$ 17,5 mil); dia 30, era a vez dos integrantes da 6 Seccional.
"Eles [Ferrara e Espuny] transformaram as funções que exerciam como policiais em um verdadeiro balcão de negócios. Eles negociavam a proteção dessas máquinas como se tivessem negociando uma mercadoria lícita. Há absoluta certeza da impunidade por parte desses policiais", disse o promotor Roberto Porto.

Advogado suspeito
Desde o dia 25 de maio, a Promotoria e a Corregedoria da Polícia Civil investigam um outro esquema de corrupção para o funcionamento de caça-níqueis envolvendo o advogado Jamil Chokr, que se envolveu num acidente de carro e transportava R$ 38 mil que seriam distribuídos para delegacias.
Nos documentos apreendidos dentro do Vectra blindado de Chokr, existe uma lista que aponta a presença de pelo menos 110 máquinas na área da 6 Seccional, com pagamentos de propina entre R$ 35 e R$ 50.
"Precisamos da colaboração máxima da corregedoria para pegar todas as vertentes. Porque, nos últimos meses, sucederam-se investigações mostrando uma frente muito grande dessas máquinas e a colaboração do poder público, através de agentes corrompidos, recebendo dinheiro para protegê-las", disse o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro.


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