São Paulo, sábado, 12 de agosto de 2000


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AIDS
Produto está em fase final de testes com 7.900 pessoas nos EUA e na Tailândia
Vacina pode chegar ao país em 2002

AURELIANO BIANCARELLI
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma primeira vacina contra o vírus da Aids poderá chegar ao Brasil já no início de 2002. Essa perspectiva ainda depende de uma série de acertos, mas até agora os passos do processo apontam nessa direção.
A vacina, produzida pela empresa norte-americana VaxGen, é a primeira no mundo em teste na fase 3. É a fase que inclui testes com humanos em grandes grupos e que antecede a liberação da droga no mercado. A vacina é produzida por engenharia genética, sem nenhum risco de contaminar as pessoas.
Ontem, em São Paulo, o pesquisador Donald Francis, da Universidade de Harvard, informou que o primeiro resultado sobre a eficácia da vacina será conhecido no final do próximo ano. A droga vem sendo testada por 5.400 homossexuais norte-americanos e 2.500 usuários de drogas injetáveis da Tailândia.
Metade desses voluntários está recebendo a vacina, a outra parte toma um placebo (uma vacina inócua). Caso o número de infectados entre os que recebem a droga verdadeira seja significativamente menor que o grupo do placebo -o que comprovaria sua eficácia-, todos os voluntários passarão a receber a vacina.
O estudo foi desenhado para terminar no final de 2002. Mas, caso a comprovação da eficácia se dê já no final do ano que vem, a vacina poderá ser colocada à disposição para populações maiores.
É nessa fase que o Brasil pode vir a entrar como cliente. O interesse do país ainda não foi manifestado oficialmente, mas Francis desembarcou em São Paulo com o propósito de conhecer a infra-estrutura dos laboratórios públicos e saber dos estudos feitos com grupos em maior risco. No próximo dia 18, o pesquisador se reúne em São Paulo com membros do Comitê Nacional de Vacina.
No dia 17, às 14h, ele participa na Faculdade de Saúde Pública da USP de uma mesa sobre protocolo de vacinas, com pesquisadores e representantes de ONGs.
Donald Francis esteve à frente do trabalho de combate ao vírus Ebola na África, na erradicação da varíola na Ásia e na identificação do HIV como agente causador de Aids. É um dos principais estudiosos em vacina do mundo.
Ele está agora à frente da VaxGen, a empresa que vem desenvolvendo a vacina. Na sua opinião, os investidores estão mais interessados em financiar remédios. "A voz da prevenção é fraca", afirma. "As pessoas que têm Aids conseguem se organizar politicamente e fazer pressão junto aos seus governos. Já as pessoas que não estão infectadas não fazem pressão por uma vacina."
Francis vê com otimismo a possibilidade de o Brasil se tornar um dos primeiros clientes da vacina. Ele lembra que o país é um dos poucos com uma política pública de tratamento e que o financiamento de uma vacina poderia reduzir esses custos.
O pesquisador afirmou que há grande otimismo com relação aos resultados da atual pesquisa. Sua preocupação é com uma possível mutação do vírus. No início dos anos 90, depois de resultados animadores em chipanzés, as pesquisas sofreram um revés. De 128 usuários de drogas injetáveis que tomaram a vacina, 7 deles se infectaram num período de dois anos e meio. Constatou-se então que a vacina não protegia contra todos os subtipos do vírus e os estudos recomeçaram.
A vacina que está em pesquisa nos EUA e na Tailândia foi preparada para dois diferentes subtipos do vírus, o B e o E.
Outro desafio, diz Francis, é a produção em grande escala e, mais que isso, a distribuição da vacina às populações mais pobres. "Com a hepatite B, os grupos mais necessitados só receberam a vacina depois de 15 anos", afirma o pesquisador. Ele estima que uma dose da vacina contra a Aids custe hoje US$ 30.


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