São Paulo, sábado, 19 de maio de 2001

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Corte poderá ficar só na ameaça

Apagão individual para todos os que desrespeitam cota é pouco viável do ponto de vista técnico

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O principal instrumento para convencer a população a economizar energia, o corte individual, deverá ser apenas uma ameaça na maioria dos casos. Pelas regras do governo, o corte será aplicado aos consumidores que não respeitarem sua meta de consumo.
Segundo a Folha apurou, o governo também considera difícil a aplicação jurídica da medida.
"Existem limitações logísticas" disse o diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), José Mário Abdo, referindo-se à possibilidade de cortes generalizados de energia.
Ao contrário dos apagões programados, que podem ser efetuados quase sempre de uma sala de operação da distribuidora, os cortes individuais exigem desligamentos manuais feitos um a um.
Um dos principais técnicos na elaboração do plano de racionamento disse à Folha que não haverá gente o suficiente nas distribuidoras para desligarem as casas, se a maioria dos consumidores decidir não respeitar sua meta de consumo.
Segundo essa fonte, que pediu para não ser identificada, em junho o governo deve ser bastante flexível no cumprimento das metas, pois a população precisaria de um tempo para saber como alcançar sua meta de economia.
O corte individual, que poderá ser aplicado também para a indústria e o comércio, deve funcionar apenas como medida exemplar para punir os casos em que houver abuso no desrespeito às regras do plano de racionamento.

Multas de trânsito
Uma autoridade do governo comparou o sistema de cortes individuais com as multas de trânsito por excesso de velocidade. Muitas vezes o motorista excede a velocidade, mas não é autuado, pois não seria possível fiscalizar todos os carros. O mesmo acontece com o corte individual. Ou seja, a punição para quem não cumprir a regra é de difícil execução.
A ameaça de deixar as casas sem energia por até seis dias consecutivos só funcionará como pressão para que a sociedade se engaje no esforço para evitar que o país pare por falta de luz. Se houver um boicote coletivo, o plano falha. O próprio "ministro do apagão", Pedro Parente, disse que, se a população não fizer seu esforço, o plano fracassa e será preciso passar para os apagões programados.
Outro problema do plano é o valor das multas, que alguns não consideram altas o suficiente para convencer os mais ricos a economizar. São as classes sociais mais altas que farão a maior redução no gasto de energia. Como são esses consumidores os de maior poder aquisitivo, eles poderão optar por pagar mais caro pela energia para não perder seu conforto. Opção que podem fazer se perceberem que o corte individual não passa de uma ameaça do governo.
As próprias distribuidoras alertaram o governo de que não conseguiriam implementar o sistema de cotas até 1 de junho e pediram um prazo de mais 15 dias. Elas terão até 30 de junho para finalizar a implementação.


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