São Paulo, quinta-feira, 29 de abril de 2004

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OPINIÃO ECONÔMICA

Presente de 1 de Maio: desemprego

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.

O 1 de Maio se aproxima. Os trabalhadores têm pouco a comemorar. Um deles chegou à Presidência da República, algo inédito na história do país. Mas a situação social não mudou para melhor. Chegou a piorar em certos sentidos.
A política econômica brasileira continua prisioneira dos mesmos preconceitos e esquemas de poder que prevaleceram no governo anterior. A economia cresce lentamente. O mercado de trabalho ainda não saiu da UTI. A taxa de desemprego está aumentando.
É uma lástima. Tenho sido, muito a contragosto, um crítico da política econômica e dos seus resultados sociais. Gostaria que o governo acertasse um pouco mais. Primeiro porque se trata do governo do Brasil. O país não agüenta mais a continuação das políticas econômicas medíocres dos últimos dez anos.
Segundo porque os beneficiários de um fracasso do presidente Lula estão aí, à vista de todos. O único partido que oferece, por enquanto, uma alternativa nacional é o PSDB, com Fernando Henrique Cardoso ou algum outro político mais ou menos equivalente. Os tucanos já estão assanhadíssimos, mal disfarçam a sua satisfação com os tropeços do governo Lula. Os demais partidos conservadores são, essencialmente, coligações de lideranças regionais e não parecem capazes de oferecer candidaturas viáveis à Presidência da República em 2006. Por outro lado, não existe até agora opção visível à esquerda de Lula.
Que situação! Veja, leitor, o quadro paradoxal que começa a se desenhar. Se o governo Lula terminar em fracasso, uma das principais causas terá sido a sua incapacidade de se desvencilhar do modelo macroeconômico seguido no período FHC. E quem colheria os frutos de um eventual fracasso? Possivelmente, os próprios políticos que implantaram esse modelo... A política econômica é o presente de grego de FHC para Lula.
O eleitorado brasileiro estava bastante sóbrio em 2002. É a minha impressão, pelo menos. A maioria não acreditava em promessas mirabolantes ou em soluções rápidas. O que se esperava do presidente Lula -e foi o que ele prometeu na campanha- era uma mudança gradual e cautelosa. Mas, frise-se, mudança -e não a simples continuação das teses, atitudes e políticas anteriores.
É de espantar, por exemplo, o que está acontecendo com o salário mínimo. Brandindo exatamente os mesmos argumentos das administrações anteriores, o governo irá propor, pelo segundo ano consecutivo, um aumento insignificante do salário mínimo em termos reais.
Ora, o presidente é, na origem, um operário, um homem do povo. O seu partido, o partido que ajudou a criar e lidera desde o início, é o "Partido dos Trabalhadores" (isso tudo parece pré-história). O governo tinha a obrigação de ter trabalhado duro para ter agora condições de dar um aumento razoável para o mínimo. Essa decisão ajudaria a distribuir renda e a reativar a demanda de consumo e o mercado interno, que andam muito deprimidos.
Foram desanimadores os dados de desemprego e renda real, divulgados nos últimos dias pelo IBGE e por outras instituições. É verdade que essas estatísticas dizem respeito aos principais centros urbanos. É possível que nas cidades menores e nas áreas rurais o quadro não seja tão adverso. É verdade, também, que as pesquisas estão mostrando alguma recuperação do nível de emprego e dos rendimentos reais.
No entanto, a recuperação em curso é muito modesta. Os salários reais permanecem deprimidos. Os empregos gerados são insuficientes para atender os que ingressam no mercado de trabalho. Em conseqüência, aumenta o desemprego.
Em março, os jovens (com menos de 24 anos) representavam nada menos que 47% dos desocupados nas seis regiões metropolitanas investigadas pelo IBGE. Isso equivale a um total estimado de quase 1,3 milhão de jovens desempregados. É o exército industrial de reserva do narcotráfico e do crime organizado, como observou Hélio Jaguaribe.
Existem meios de mudar essa situação? Sim, sem dúvida. Não estamos de forma nenhuma condenados à estagnação e ao desemprego. Mas ilude-se quem imagina ser possível melhorar a vida dos brasileiros sem abandonar o modelo econômico herdado do governo anterior.
A herança é mesmo maldita. Continuá-la pode ser fatal para o governo Lula. Para o Brasil, a sua continuação significará provavelmente uma terceira década perdida em termos de desenvolvimento.


Paulo Nogueira Batista Jr., 49, economista e professor da FGV-EAESP, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É autor do livro "A Economia como Ela É..." (Boitempo Editorial, 3 edição, 2002).

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