São Paulo, quarta-feira, 04 de outubro de 2006

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PERGUNTAS E RESPOSTAS

A Bienal é mesmo um evento de prestígio internacional? A arte contemporânea virou um vale-tudo? Tire suas dúvidas

1 - Qual a real importância da Bienal de São Paulo?
A Bienal de São Paulo só é menos tradicional do que a de Veneza. As bienais têm perdido algo de seu prestígio para grandes feiras, como a de Basel, e eventos como a Documenta de Kassel. Mas a mostra brasileira é uma das mais importantes do mundo. Para Joël Girard, diretor de Relações Internacionais e Regionais do Centro Pompidou (Paris), "a Bienal de São Paulo é o evento das artes visuais mais aguardado da América Latina e mesmo das Américas". Roger Buergel, curador da 12 Documenta de Kassel, que irá se realizar em 2007, diz que a "A Bienal de São Paulo é mais antiga que a Documenta e ocorre num edifício generoso, de se perder a respiração. Admiravelmente, a curadora atual acabou com o ultrapassado modelo de representações nacionais que ainda domina Veneza."

2 - Grandes exposições, como a Bienal, não estão se transformando em "parques de diversões"?
O modelo de grandes exposições que recebem público numeroso e "leigo" não consegue escapar desse efeito. Há artistas que até produzem obras para se aproveitar desse contexto. Na opinião de Rosa Martinez, co-curadora da Bienal, "é bem verdade que as bienais participam da espetacularização da cultura, cujo maior exemplo é o Guggenheim de Bilbao, mas temos a responsabilidade de resistir a esse processo e criar novas formas de relação do público com arte."

3 - A arte brasileira é respeitada no circuito internacional?
A arte contemporânea brasileira já conquistou um espaço considerável no circuito mundial. Artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Antonio Dias, entre tantos outros, expõem regularmente no exterior e têm trabalhos nas principais coleções. Na opinião de Samuel Keller, diretor das feiras Art Basel and Art Basel Miami Beach, o Brasil é o país que tradicionalmente tem a maior produção artística na América Latina, embora por muito tempo ela não tenha obtido reconhecimento internacional. "Vejo que isso mudou muito nos últimos dez anos, graças a ações individuais, como as de galeristas como Marcantonio Vilaça e Luisa Strina, que viajam muito para mostrar trabalhos. Há também um grande número de curadores, como Adriano Pedrosa, Ivo Mesquita e Paulo Herkenhoff, que tem trabalhado muito."

4 - Hoje em dia tudo pode ser arte? Quem decide se algo é arte ou não?
As vanguardas modernas ampliaram o campo daquilo que anteriormente era aceito como arte. Temas e objetos menos nobres e novas formas de expressão surgiram e ganharam legitimidade no meio da arte. Há um sistema formado por instituições, críticos, curadores, colecionadores, scholars etc, que, com base numa série de critérios, legitima ou não o que se deve considerar como arte.

5 - Qual o papel de um curador?
O curador é o responsável pela seleção de obras e pelo conceito das exposições. De acordo com Rosa Martinez. co-curadora da Bienal, "uma das funções do curador é ser como um editor, alguém que, com critério estético e político, sabe eleger as mensagens que são mais significativas para interpretar o mundo onde vivemos". Seu papel seria "colocar um filtro" no caos informativo em que vivemos.
Obviamente que a situação estratégica ocupada por curadores pode dar margem ações duvidosas e "armações" no mercado de arte. "No mundo da arte existe um tipo de máfia com uma rede de conexões que não se refere ao conteúdo mas às formas de permanecer dentro do sistema já que estas posições são extremamente frágeis. Certos curadores, na minha experiência, tentam capitalizar sobre aquilo que os artistas estão fazendo. Eles se apropriam das coisas e fazem a exposição como se o trabalho fosse seu", diz Roger Buergel, curador da 12 Documenta de Kassel.


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