São Paulo, terça-feira, 11 de abril de 2006

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BASQUETE

Justiça em dobro

MELCHIADES FILHO
COLUNISTA DA FOLHA

Em menos de um ano, o Dallas Mavericks deixou de ser um time vulnerável, ridicularizado pela falta de ímpeto e qualidade na marcação. Hoje, ostenta a sétima defesa menos vazada e ocupa posições de destaque nos rankings coletivos de rebotes (terceira) e tocos (segunda). Não à toa, ascendeu na tabela, com a terceira melhor campanha da NBA (58 vitórias em 77 rodadas).
Dirk Nowitzki teve papel importante nessa pequena revolução. Ele aprendeu a dar combate aos corta-luzes, a não tropeçar no vaivém das coberturas. Passou a ser usado como uma segunda linha na retaguarda, deslocando-se para coibir chutes de média distância e afunilar infiltrações.
Parece pouco, mas fez muita diferença. O ala-pivô alemão era justamente a peça mais frágil do sistema defensivo texano.
Mas isso bastaria para legitimar a presença do cestinha entre os concorrentes ao troféu de craque da temporada? Faria sentido premiá-lo só porque parou de dar vexame na marcação? Não e não.
Contudo, como já alertei aqui, analisar o basquete em metades é assumir o risco de entendê-lo... pela metade. O ataque nasce antes de a equipe retomar a bola (a posição e a atitude dos marcadores definem o desenho e o sucesso da ação ofensiva). E a defesa é delineada pela estratégia (cadência, itinerário e envolvimento) adotada para criar os arremessos.
Nesse sentido, à revolução na defesa do Dallas corresponde uma outra, no ataque. O azar de Nowitzki é que poucos falam dela, dessa revolução silenciosa.
Em 2003/2004, ninguém corria mais e melhor do que os texanos. Steve Nash puxava os contra-ataques, e o alemão ganhava notoriedade por traduzi-los em cestas.
No campeonato passado, apesar da saída de Nash para o Phoenix, o ritmo manteve-se acelerado. O time cravou o nono lugar em posses de bola por minuto, e o alemão pontuou como nunca.
Neste ano, porém, o clube desligou o motor e despencou para 25. É isso mesmo. Só cinco adversário são tão cautelosos (quer dizer, lentos) quanto o Dallas.
A mão do técnico Avery Johnson não parou por aí. Na contramão da liga, que tem privilegiado o basquete de troca de passes, ele orientou os comandados a procurar a cesta por meio de "isolamentos": um atleta cria, os colegas esperam para ver no que dá.
Por isso os Mavericks aparecem na penúltima colocação em assistências por jogo (18,1) e na lanterna em cestas "financiadas" por assistências (50% do total).
Se você gosta de apontar o LA Lakers como símbolo de equipe-de-um-jogador-só (no caso, o fabuloso Kobe Bryant), está na hora de rever o discurso. Os californianos são bem mais solidários do que os texanos. Registram em média 20,9 passes perfeitos e uma relação assistência/cesta de 57,7%.
O principal "one man show" da NBA está em cartaz em Dallas. Do alto do garrafão, Nowitzki define a sorte de todo ataque da equipe, um desafio novo (e ingrato!) a que ele respondeu com recordes pessoais de pontos (26,6) e pontaria (48,3% nos arremessos, 41,2% nos de três pontos e 89,6% nos lances livres). Eis o homem!

MVP 1
Dos candidatos à taça de "most valuable player", Nowitzki é o único que não usufrui a companhia de outro All-Star na formação titular de seu time. Recompensá-lo significaria, também, reconhecer a valiosa contribuição internacional à NBA (Manu, D'Antoni...).

MVP 2
Lakers de volta aos playoffs, 81 pontos em uma partida, cestinha da liga... Foi duro não dar o troféu a Kobe, que, com a decadência física de Tim Duncan, assumiu o trono de melhor jogador do mundo.

MVP 3
Não sabe (ou se lembra) por que tirei do páreo LeBron, Nash, Billups e outros gênios? A coluna passada está no melk.blog.uol.com.br.


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