São Paulo, sexta-feira, 02 de setembro de 2005

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"Gaijin 2" desafia contexto "dramático"

DA REPORTAGEM LOCAL

Lá se vão 20 anos desde que a cineasta Tizuka Yamasaki lançou o longa-metragem "Patriamada". E parece que foi ontem.
"O filme estava indo muito bem. Mas, uma semana depois da estréia, o [presidente eleito] Tancredo Neves foi para o hospital, e meu público, para a frente da TV", relembra Tizuka.
Com "Gaijin - Ama-me como Sou", seu novo filme, que a diretora põe à prova a partir de hoje em 120 salas brasileiras, Tizuka ao menos não será surpreendida.
"Sei que estamos num momento dramático. Mas estrear agora é nossa resistência em achar que tudo parou", ela diz. Refere-se tanto à crise política brasileira, que deixa outra vez os espectadores estacionados em frente à TV, como à tendência mundial de queda de público nos cinemas.
Com a saga de imigrantes japoneses que elegem o Brasil como nova pátria para amar, no início do século 20, baseada em sua história familiar, Tizuka pretende reintroduzir às salas do país um público que se afastou delas há décadas -o familiar.
"A censura do regime militar fez com que o cinema brasileiro buscasse o caminho da pornochanchada, que não interessa às famílias, ou o da excessiva alegoria, na vertente autoral, que também fala para poucos", diz.
Ao mirar o alvo das famílias, "Gaijin - Ama-me Como Sou" tem a companhia do já estreado (com grande sucesso) "2 Filhos de Francisco", de Breno Silveira.
"Acendo uma vela todo dia pelo filme do Breno. Sabemos que um grande sucesso esquenta o mercado para outros", diz Tizuka.
Ainda na seara das regras da atração do público de cinema, a diretora afirma que um filme "não deve ser armado para vender, mas para conquistar".
Desdobramento dessa teoria, para Tizuka, é o fato de que "quanto mais um diretor fala de sua intimidade, mais ele ganha a confiança do público".
"Gaijin - Ama-me como Sou", centrado nas personagens femininas de quatro gerações de uma mesma família, fala bastante sobre a intimidade de Tizuka.
Talvez por isso a diretora refute com ênfase críticas que ouviu no mês passado, durante o 33 Festival de Gramado, de onde, no entanto, o filme saiu com os Kikitos de melhor título de ficção, melhor direção, melhor música (Egberto Gismonti) e melhor atriz coadjuvante (Aya Ono, revelação aos 78 anos de idade).
"Não acho que se possa chamar de banal ou água-com-açúcar um romance em que as pessoas precisam se separar, amadurecer e descobrir como ficar juntas", diz.
Na tela, essa é a história de Maria, vivida pela atriz norte-americana Tamlyn Tomita, e de Gabriel, interpretado pelo cubano Jorge Perrugoria, primeiro gaijin (estrangeiro) a entrar na família.
Tizuka, 56, acha que Maria é representativa das mulheres de sua geração, "que decidiram fazer tudo sozinhas", ter filhos inclusive. "Isso teve um preço. E agora estamos nos perguntando se valeu a pena", afirma.
Sem dominar suficientemente o português, Tomita e Perrugoria foram dublados. Ele, pelo ator Chico Díaz. Ela, por Eda Nagayama, que também atua no filme, como Shinobu, quando jovem.
Tizuka sabe que a dublagem incomodou a crítica. Diz que, pelo que observou do público nas pré-estréias do filme, esse aspecto incomodou apenas a crítica.
No mais, "Gaijin - Ama-me como Sou" intenciona traduzir -o diferente, como indica seu título-, não dublar a realidade. (SILVANA ARANTES)


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