São Paulo, sexta-feira, 07 de junho de 2002

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"IVAN, O TERRÍVEL"

Produção de Eisenstein é uma das maiores de todos os tempos

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Será "Ivan , o Terrível" o ponto alto da Mostra Eisenstein? Não é certo. Mas é sem dúvida um dos maiores filmes de todos os tempos.
A produção do cineasta russo é quase toda composta de pontos altos que convém situar historicamente. Toda a fase dos anos 20, de "A Greve" (1924) até "A Linha Geral" (1929), se insere na busca de uma estética revolucionária, em que os principais nomes do cinema soviético exercerão um papel de vanguarda (a esse respeito, vale ler "Eisenstein e o Construtivismo Russo", de François Albera, lançado na quarta-feira e a propósito do qual realiza-se o ciclo).
Uma das preocupações de Eisenstein nessa fase é retirar do cinema o caráter realista que lhe atribuíra D.W. Griffith (uma referência central para ele), dando ênfase à materialidade do filme.
Daí a estética de choque de "O Encouraçado Potemkin" ou de "A Linha Geral", que Eisenstein define em "Sttutgart": "Montagem não é um pensamento composto de partes que se sucedem, e sim um pensamento que nasce do choque de duas partes, uma independente da outra".
Inútil dizer que, com Stálin no poder, a idéia de choque é severamente reprimida, em favor do realismo socialista, tralha didática que domestica a idéia de conflito, quando não a suprime.
Inútil dizer também que Eisenstein não se encaixará na estética stalinista. Começa, após 1929, o exílio que o leva aos EUA e ao México e o limita a seus cursos de direção. Só quando o calo aperta ele é chamado a dirigir.
Primeiro, "Alexandre Nevski" (1938), evocação do czar que expulsa os alemães. Depois, "Ivan, o Terrível", história de Ivan 4, czar do século 16 que enfrenta uma série de intrigas cortesãs e rebeliões internas, impõe-se aos nobres, estabelece-se como monarca absoluto e garante a unidade nacional.
Ivan seria, assim, um alter ego de Stálin, que também enfrentou a oposição com mão de ferro. O próprio Stálin parece que não sabia muito bem o que fazer com o filme: proibiu a exibição da segunda parte (que só seria vista após 1958), onde o aspecto tirânico e paranóico de Ivan se mostra com clareza, mas permitiu a realização da terceira parte (o que não aconteceu devido à doença e à morte de Eisenstein, em 1948).
Política à parte, Eisenstein mudou muito do mudo ao sonoro, mas permaneceu "um materialista e não um realista", como se definia. A matéria fílmica impõe-se em cada sequência em "Ivan", com um andamento lento e uma solenidade operística realçada pela cenografia e pelos contrastes violentos de luz e sombra.
A épica de Ivan não é histórica no sentido habitual (de reconstituição). A história povoa o espetáculo, acossando os personagens e chamando o espectador a entrar nela e a relacionar passado e presente. Ademais, as dimensões do drama como que se multiplicam, seja para mostrá-lo como drama, seja para dar-lhe espessura.
Assim é "Ivan": filme e prova do filme, idéia e prova dessa idéia. Filme sonoro de pleno direito, em que Eisenstein não recua em sua formulação de um cinema em que a sucessão de imagens cria o conflito histórico, em vez de recolhê-lo no exterior (seja a história "verídica" de Ivan, seja o roteiro).
Esse filme, Eric Rohmer definiu como "a mais perfeita síntese de todas as artes, sem a menor degradação de uma ou de outra. "Ivan o Terrível" é um drama, um afresco, uma arquitetura, uma ópera, e é no entanto um verdadeiro filme, com um poder de fascinação sui generis". Quem não assinaria embaixo?


Ivan, o Terrível     
Direção: Sergei Eisenstein
Produção: União Soviética, 1944/1946
Quando: 1 parte, hoje, às 20h; 2 parte, amanhã, às 20h
Onde: Espaço Unibanco - sala 4 (r. Augusta, 1.475, São Paulo, tel. 0/xx/11/288-6780)
Quanto: entrada franca



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