São Paulo, segunda, 12 de outubro de 1998

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O soul brasileiro ainda respira


Quatro dos maiores nomes da black music nacional, Cassiano, Hyldon, Sandra de Sá e Cláudio Zoli, se reúnem a convite da Folha para discutir o futuro do gênero musical no Brasil


Publius Vergiliius / Folha Imagem
A partir da esq., Cassiano, Cláudio Zoli, Sandra de Sá e Hyldon, que se reuniram para debater a soul music brasileira


PEDRO ALEXANDRE SANCHES
enviado especial ao Rio

Quando gravava "Eu Sempre Fui Sincero e Você Sabe Muito Bem", seu tributo a Tim Maia (1942-1998) a ser lançado nesta semana, a cantora Sandra de Sá, 36, acenou, em entrevista à Folha, com a possibilidade de reencontrar Cassiano, 56, e Hyldon, 47, parceiros originais do soulman.
"Pô, escreve aí no jornal para eles me ligarem", disse, provocada sobre por que homenageava o mestre morto, mas não os vivos. Nenhum dos dois ligou. Nem ela.
Agora, a Folha propôs a eles -e ao cantor e compositor Cláudio Zoli, 37, herdeiro como Sandra da tradição soul fundada por Tim Maia e Cassiano no final dos 60- um encontro para discutir o futuro da black music, a música negra brasileira.
"Este pode ser um momento altamente importante", concluiu Sandra ao final do encontro.


Ostracismo Cassiano e Hyldon, após uma onda inicial de popularidade (leia texto à pág. 6-5), têm lutado contra o ostracismo.
Cláudio Zoli, herdeiro também da tradição maldita, só agora consegue lançar seu segundo disco solo nesta década. "Férias" sai em novembro.
As questões centrais do encontro: por que o movimento black de MPB se desagregou e como retomá-lo agora, quando a vulgarização operada por axé e pagode jogou a escanteio até as derivações bregas do soul nos 80?

A desagregação Hyldon abre a sessão: "O movimento não teve continuidade também porque o piloto era louco. Tim Maia era um cara que não conseguia juntar as pessoas, brigava com todo mundo. Eu, ele e Fábio fizemos o "Fantástico' uma vez. Ele não falava comigo, eu não falava com Fábio. E era por besteira, insegurança, brigávamos com quem gostávamos. Nós nos fechamos".
"Hoje em dia continua faltando a união da gente", emenda Sandra de Sá.
"A indústria fonográfica faz com que a coisa fique aleatória. A música black chegou a um ponto que faz a gente se afastar mesmo. O mercado fonográfico é muito oportunista", afirma Zoli.
Fala Cassiano: "Antes, um artista novo entrava numa companhia e tinha um respaldo de três discos. Se não acertasse em um, tinha chance de fazer outro, porque os caras viam que tinha talento". "Hoje, se a primeira música não vendeu, já era", completa Sandra.
Hyldon depõe: "Antes, as gravadoras tinham "cast' para dar prestígio. Milton cansou de gravar na Odeon sem vender. Isso acabou. Hoje o cara tem o projeto feito e precisa encontrar um artista para o projeto, para cantar bolero".
Cláudio Zoli: "A indústria musical no Brasil se tornou uma salada mista. O que interessa para eles é o que vai tocar na rádio e vender. Não interessa se o cara tem talento".
"Se você quiser fazer axé, o produtor vai achar genial e vai fazer. Se não der certo, não deu. Ele faz 20 produtos, se acertar dois ou três está bom", concorda Hyldon.

Racismo, oportunismo Em parte por culpa própria, em parte levados pelo sistema industrial, eles assistiram ao desmonte gradativo da cultura "black" no país.
"Hoje, quando se junta um monte de preto cantando é porque nenhum canta nada. Ficam dançando lá atrás", afirma Hyldon.
Por falar nisso, e considerando que movimentos mais "multirraciais" -o tropicalismo, o clube da esquina- foram mais hábeis em preservar a união de grupo, não haveria um componente racista na desagregação da música negra?
"Pode haver um ingrediente aí, cara", suspeita Sandra. Hyldon discorda: "Acho que não. Pior que o racismo é a indústria não reconhecer talentos". Cassiano também: "Racismo há mesmo é nos Estados Unidos. Quando um cara é do soul, não importa a cor dele, se é branco ou amarelo. Soul é música de sentimento, de alma. É música para abrilhantar o amor, até a política".
"No Brasil, essa questão não é tão importante. Soul brasileiro usa harmonia de bossa nova, é a música moderna brasileira. E Cassiano é o mestre disso", diz Zoli.
Cassiano o interpela: "Sabe como sou mestre? Tenho fitas com músicas inéditas que dão para encher um elevador. Sempre que a mídia precisa lançar uma Ivete Sangalo, eu sou o mestre, o papa. Quando ganham a grana que queriam, o mestre pode ficar na rua, não tem mãe, não come".
Hyldon embarca: "Tudo é marketing. Se você diz que titica de galinha é bom para nascer cabelo ninguém usa. Se puser numa latinha com nome estrangeiro e anunciar na televisão, todo mundo vai passar merda de galinha na cabeça".
Sandra opina sobre a música comercial dos 90: "Tem esse merdel. Você não gosta, mas fica na sua cabeça. Se investissem na gente como investem neles, é lógico que ia dar certo. E ia dar cultura".
"É claro que a Sandra fazer um tributo ao Tim é diferente, mas as gravadoras vivem em cima disso. Pensa que não estão esperando que eu morra também? Mas aquele lá -aponta para cima- ainda não está querendo. Pensam que vou morrer, estão doidas para que eu morra para arrumar uma confusão em cima e ganhar mais alguns dólares".

A retomada Diante de cenário tão macabro, há esperança de futuro para a combalida black music nacional? Como se dará a retomada?
"Essa retomada acontece naturalmente. Quando um vai, leva o outro. Onde vou, levo um pouco de cada um deles", diz Zoli.
"As pessoas sempre me perguntam: "Cadê o pessoal?'. Já que a gente está junto aqui, é hora de se tocar, se cruzar", proclama Sandra.
No comentário, ela admite um esforço para se afastar da diluição do soul de que andou participando: "A gente um dia tem que se tocar. Já que nada muda, você tem que meter a cara e se enfiar, com todos os sacrifícios entre aspas. Chegou aqui, estou indo nessa, os brasileiros que me sigam".
Cassiano prefere não fazer mais que dar sua receita pessoal: "Eu só quero dizer para a mídia que eu não minto. O Cassiano do outro lado é minha vida particular, cada um tem os seus erros, mas, dentro da minha profissão, eu sou um cara íntegro. Quando você está todo furado, com altas facadas no seu coração, vai se preocupar com agulhinhas? Não".
Ao final do encontro, precisaram trocar números de telefone -apenas Cassiano e Hyldon mantinham contato. Essa é a soul music brasileira.
LEIA MAIS sobre soul brasileiro à pág. 6-5



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