São Paulo, segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

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RÉPLICA

Quem tem medo de masturbação masculina?

JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Na matéria "Autran não perdoa ninguém e agrada a todos" (Ilustrada de 30/11), dentre as críticas aplaudidas feitas por aquele que tem o "cargo" de Primeiro Ator do Brasil, uma delas se refere mais à minha pessoa. Pois é, o detentor deste "cargo" está ao lado de Costa e Silva*, Bush e Bento 16 na cruzada que declararam contra as conquistas de liberdade do amor libido.
Na guerra e massacres que as castas do capital, balançadas pelas conquistas da multidão, vêm fazendo, há um neofascismo todo dedicado ao massacre de Eros, tanto que nós todos hoje temos que fazer a defesa política do amor, como fazemos contra o racismo. No teatro esta guerra é a de clones de atores contra Dionísios.
Por exemplo: comentando meu trabalho atual que é "Os Sertões" -cinco espetáculos de duração de 30 horas-, o subsir caipira colonial Paulo 1 (que não nos deu a honra de tê-lo no Oficina vendo a cena ), partindo de fofocas, foca no tabu da masturbação, no tempo da duração fugaz de um gozo, uns três minutos numa peça de seis horas: "A Luta 2". Mariano Matos, grande jovem ator, cria uma obra de arte de atuação com a personagem do seu soldado acordando no meio de um sonho de amor, atacado pelos jagunços e atingido no momento de sua "petite mort", o gozo.
A divina masturbação para Jean Genet, para nós, é totem. Está na base de todo trabalho do subtexto livre e soberano do ator de gênio, que sabe provocar sua imaginação a partir dos seus prazeres, sonhos e desejos mais viscerais e livres. Quem sabe praticar a oração meditação, a masturbação, começa a se conhecer, saber de seu desejo, sabe dar espírito, alma ao seu Eros, fazer passar por seu corpo o corpo das personagens e dar-lhe o mais precioso, seu tesão elétrico, para que a personagem seja dada sensual, táctil, teatral, livre e viva para o público. Coisa que este cabação nunca experimentou, e por isso nos aborreceu sempre (exceto na TV e no cinema) com uma série de interpretações insípidas de salão de tias, e talvez por isso mesmo tenha sido consagrado.
Além dos lugares-comuns da mais escrota classe média de suas posições sobre o governo, sobre nós, os diretores de teatro etc., mais que sua burrice, me escandalizou o choque, pela revelação, junto com Barbara Heliodora, (ela tem a mesma posição sobre a masturbação e o teatro), do Primeiro Ator do Brasil estar aliado aos ataques mais asquerosos ao amor libido no mundo. Meus pêsames.
(*Costa e Silva, ditador de óculos escuros em 68, que declarou na TV que "Santidade", de Zé Vicente, jamais seria representada no Brasil; desde este tempo Paulo Autran já era tronado como "primeiro-damo", tendo feito antes "Liberdade! Liberdade!")


José Celso Martinez Corrêa é diretor de teatro

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