São Paulo, segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

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FOTOGRAFIA

Primeira exposição do mexicano no Brasil, "O Pincel da Câmera" (CCBB de Brasília) tem imagens de procissão em Goiás

Mostra une arte e tecnologia de Pedro Meyer

EDER CHIODETTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Com a exposição "O Pincel da Câmera", que será inaugurada amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, dentro da programação do Foto Arte 2005, o polêmico fotógrafo mexicano Pedro Meyer, 70, toca de uma só vez em duas feridas expostas da fotografia ao longo de sua história: a ligação com a pintura e a aura de realismo que o senso comum devota às imagens técnicas.
Meyer é um pesquisador obsessivo das possibilidades expressivas da fotografia. Para se ter uma idéia, na década de 80 ele auxiliou nas pesquisas que culminaram na criação das câmeras digitais. Depois realizou os Colóquios Latino-Americanos de Fotografia, no México, que hoje estão na 20 edição. Em 1991, lançou o que hoje é considerado o primeiro CD-ROM com fotos e áudio, "Fotografío para Recordar", com uma emocionante narrativa sobre os últimos meses de vida de seus pais. A obra é item de colecionadores.
Quando a internet chegou, Meyer criou o site www.zonezero. com -citado recentemente por revistas especializadas como um dos cinco melhores websites de arte do mundo-, voltado para a publicação de ensaios fotográficos de autores do mundo todo que recebem tratamento gráfico diferenciado após seleção de Meyer e sua equipe.
O mexicano vê na massificação das câmeras digitais e dos programas de manipulação de imagem a oportunidade da "fotografia se livrar de vez da pretensa objetividade, dessa idéia de duplo do real, que a ela foi imposta desde o século 19".
Com o provocador título de "O Pincel da Câmera", primeira mostra de Meyer no Brasil, o artista joga pelos ares essa objetividade na busca de uma expressão autoral. "Porque devo respeitar aquilo que o engenheiro que fez a câmera programou? Ao intervir subverto e me manifesto como penso", diz ele.
A maioria das imagens da exposição foi feita durante a procissão do Divino Padre Eterno, na cidade de Trindade (Goiás), no ano passado. São retratos de romeiros demonstrando fé, dor, alegria. Meyer tem a peculiaridade de fotografar as pessoas de frente e de surpresa, tentando captar a expressão no seu ápice.

Trabalho no computador
Com as imagens captadas, sempre por câmeras digitais -ele sugere que as câmeras de filmes se tornaram peças de museu-, Meyer as trabalha em seu Macintosh. Com uma das ferramentas, uma versão computadorizada de um pincel, ele embaralha os pixels que formam o fundo, preservando a imagem do personagem.
Geralmente ele não altera as cores do fundo ou a luminosidade. O resultado sugere uma fusão entre fotografia e pintura. "O monitor do computador é um espaço que opera como se fosse um cenário. Eu, como diretor, movo as luzes, os atores e tecido onde deve ficar cada elemento. O termo fotografia, escrever com a luz, deixou de ser uma metáfora pela primeira vez na história", explica.
Mas nem por isso "o tempo da fotografia testemunhal terminou", como afirma o fotógrafo. Mesmo nas suas imagens há a preservação do testemunho, da centelha de real que justifica a obra, caso contrário, ele não necessitaria do referente, embora este apareça menos afirmativo que na prática fotojornalística e pleno de uma subjetividade outra.
As imagens finais, porém, soam ainda um tanto deslumbradas com a tecnologia. Estão mais para manifesto que arte, mais para um catálogo de possibilidades que para uma mostra com conceito e estética em equilíbrio. Sem problema. A função de Meyer no mundo da fotografia é mais a de expandir fronteiras e derrubar mitos e preconceitos do que se firmar como artista. É um iconoclasta. E os iconoclastas movem a história.


Pedro Meyer - O Pincel da Câmera
Quando:
ter. a dom., das 10h às 21h; até 5/2
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil -Galeria 2 (SCES, trecho 2, lote 22, Brasília, tel. 0/xx/61/3310-7087
Quanto: entrada franca


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