São Paulo, domingo, 15 de agosto de 2004

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LITERATURA

Morre, aos 93, o poeta Czeslaw Milosz

DA REDAÇÃO

Morreu ontem na cidade de Cracóvia, Polônia, o poeta, ensaísta e escritor Czeslaw Milosz, premiado com o Nobel de literatura em 1980 e considerado um dos símbolos de oposição ao totalitarismo durante a época da Cortina de Ferro. Ele tinha 93 anos.
Milosz foi um dos maiores responsáveis por dar visibilidade à poesia polonesa dentro da literatura mundial e chegou a ser descrito por Joseph Brodsky, outro poeta vencedor do Nobel, como "um dos maiores poetas de nosso tempo, talvez o maior deles".
O trabalho de Milosz, fundado em uma poesia complexa, intelectual e que perpassava a discussão da moral, refletia a turbulência e o caos do século 20, muito do qual o polonês passou no exílio.
Lech Walesa, ex-presidente da Polônia e fundador do sindicato Solidariedade, afirmou que "[Milosz] foi membro de uma geração que era incapaz de defender a liberdade e a dignidade, mas ele permaneceu lutando, propondo, encorajando e nós finalmente atingimos esses objetivos".

Universalismo
Nascido em Szetejnie (hoje Vilna, capital da Lituânia), de uma família polonesa, Milosz traçou seu imaginário a partir da vivência de sua infância no interior lituano. Mas para a escritora polonesa Eva Hoffman, "ele nunca foi um artista provinciano. Seus escritos talvez se baseiem em seu passado polonês e lituano. No entanto, o material produzido em sua vida atravessa um pensamento que vai a fundo na experiência individual, que acaba por se tornar universal".
Inicialmente o poeta apoiou o regime comunista na Polônia, imposto pela União Soviética. Após trabalhar no corpo diplomático do governo polonês entre 1945 e 1950, o poeta se desiludiu com o modelo vigente e se exilou na França a partir de 1951. Milosz explicaria mais tarde que sua decisão havia se baseado no dano causado aos valores espirituais e intelectuais pelo dogma comunista.
"Eu rejeitei a "nova fé" porque a mentira é um de seus principais mandamentos, e o realismo socialista é nada mais do que um nome diferente para uma mentira", afirmou em discurso, comentando o gênero que foi seguido por muitos intelectuais de sua época.
Em 1953, escreveu "Captive Mind", uma análise das táticas stalinistas e um forte ataque aos escritores poloneses que colaboravam com o governo comunista polonês, trabalho que reverberou por todo o bloco soviético e pela comunidade literária ocidental.

Crise espiritual
Boa parte da obra de Czeslaw Milosz falava sobre a crise espiritual do mundo contemporâneo e confrontava as tradições nacionais polonesas. "Ninguém foi tão profundamente dentro de nossa cultura literária nem conseguiu de tal maneira descrever o que nós nos deparamos no passado", disse Stanislaw Lem, escritor polonês de ficção científica, autor de "Solaris".
Quando recebeu seu Prêmio Nobel de Literatura, em 1980, Milosz afirmou que "apesar do horror e dos perigos, nossos tempos serão lembrados como uma inevitável fase de dores de parto antes da humanidade atravessar um novo portal da consciência".
Em uma pesquisa feita em 2002 na Polônia, Milosz estava entre as personalidades mais admiradas do país, ao lado de Lech Walesa e do papa João Paulo 2.



Com agências internacionais


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