São Paulo, sexta-feira, 16 de abril de 2004

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DVDS

"SHAKESPEARE POR LAURENCE OLIVIER"

Caixa preserva Laurence Olivier do esquecimento

SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA

Intimista, com uma dinâmica que não se prende a limitações de tempo e espaço, o teatro de Shakespeare sempre se prestou a grandes adaptações para o cinema, seja por modernização -como a que fez de Leonardo DiCaprio um Romeu pós-moderno-, seja por aproximações com outras tradições, como as versões japonesas de Akira Kurosawa.
A Continental lança uma caixa de DVDs com quatro versões de Laurence Olivier, um pioneiro nesse campo. "Como Gostais", de 1936, dirigido por Paul Czinner, traz o ator com 29 anos, despontando no cinema com um Orlando cheio de energia, impressionante pela técnica e despojamento, além da beleza física (já abusava de olhares perdidos). O filme, no entanto, envelheceu bastante e serve como um documento, um aperitivo do que virá depois.
"Henrique 5" (1944) foi a consagração de Olivier, que então já assume a direção e a produção. Segundo um princípio que terá grande endosso nas décadas seguintes, a de que o teatro shakespeariano só funciona plenamente no espaço físico no qual foi concebido, o filme parte de uma reconstituição do que seria uma apresentação em 1600 no Globe Theater para ir se despojando progressivamente das convenções teatrais, até se beneficiar plenamente das possibilidades do cinema. É visível o prazer de Olivier brincando de cabotino no início, para depois, no famoso discurso ao Exército inglês, falar direto ao coração de uma platéia que tinha uma guerra a vencer.
Curiosamente, "Hamlet" (1948), o filme mais prestigiado na época, é o que soa menos convincente hoje. Apesar da ousada direção de arte de Carmen Dillon, que remete ao expressionismo de Gordon Craig com suas escadarias e plataformas sobre o oceano, Olivier erra não tanto por reduzir a tragédia às desavenças de "um homem que não podia tomar decisões", acentuando o complexo de Édipo de Hamlet em detrimento das conotações políticas da peça, mas por concentrar todo o filme em sua atuação, ralentada por excessivos closes e vozes "over".
Uma vaidade algo ridícula da qual se redime brilhantemente anos depois, em "Rei Lear" (1984). Sem procurar mais provar nada a ninguém, com uma direção discreta de Michael Elliott que valoriza harmonicamente um grande elenco, Olivier prova nesse canto de cisne o quanto deve ser preservado do esquecimento.
Tarefa, aliás, que a Continental cumpre apenas parcialmente. Desdenhando os grandes recursos de interatividade que o DVD possibilita, limita os bônus a textos curtos e sem assinatura, com uma filmografia básica em um formato pouco atrativo. O desleixe se prolonga em excessivos erros de digitação na legenda em português. Espera-se que, nos próximos lançamentos, a Continental valorize mais seu acervo.


Shakespeare por Laurence Olivier
   
Quanto: R$ 190, em média



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