São Paulo, segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

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O cinema pega em armas

Divulgação
Cena do longa-metragem "Conspiração do Silêncio", de Ronaldo Duque, que aborda a luta na guerrilha do Araguaia (1970-75)


Luta entre o regime militar e opositores armados é revisitada por três novas produções brasileiras

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Quarenta anos depois de seu início e 20 depois de seu término, o regime militar, que imperou no país entre os anos de 1964 e 1984, volta a assombrar as telas de cinema no Brasil.
Três novos longas-metragens tratam da trágica e quixotesca resistência armada à ditadura: "Vôo Cego Rumo Sul", de Hermano Penna, "Cabra-Cega", de Toni Venturi, e "Conspiração do Silêncio", de Ronaldo Duque. A Folha teve acesso exclusivo aos três filmes, que estão em fase de finalização e serão lançados ao longo deste ano.
Cada um deles aborda um momento específico da luta contra o regime, e o conjunto acaba mapeando várias faces dos chamados "anos de chumbo".
"Vôo Cego" retrata a confusão da esquerda nos dias imediatamente posteriores ao golpe de 31 de março, quando ainda havia a esperança de que o movimento militar não vingasse.
Quatro jovens oposicionistas juntam armas e dinheiro e partem de carro rumo ao Rio Grande do Sul, onde pretendem se engajar na resistência ao golpe.
Construído como um "road movie" e gravado em vídeo digital, "Vôo Cego" se baseia num capitulo do livro "Cara, Coroa, Coragem", de Sinval Medina.
"A sugestão da viagem é acompanhada pela evolução dos acontecimentos políticos", diz Penna, que tem "Sargento Getúlio" (1983) em seu currículo. "Para os personagens, nada está definido", completa.
"Vôo Cego" ganhou o concurso para financiamento de telefilmes do Ministério da Cultura e foi concebido para exibição no Canal Cultura e Arte, do MinC, hoje extinto. Custou meros R$ 450 mil. Para ser transferido para película e lançado em cinemas precisa de mais R$ 180 mil.
Mas o diretor, por enquanto, se concentra na busca de uma emissora que queira mostrá-lo. "Gostaria de exibi-lo no dia 31 de março de 2004."
Se "Vôo Cego" é um "road movie" brancaleônico, "Cabra-Cega" é um "huis clos": no interior de um apartamento burguês, uma dedicada militante serve de enfermeira a um guerrilheiro ferido. Às vezes um líder do seu grupo lhes traz noticias sobre o andamento da guerra.
Inspirado num argumento do colunista da Folha Fernando Bonassi e roteirizado por Di Moretti, o filme se alicerça no trabalho da dupla de protagonistas (Leonardo Medeiros e Débora Duboc) e em elaborados movimentos de câmera.
"Meu cinema é de ator, procura uma "verdade" na representação, na "mise-en-scène" proposta", diz Toni Venturi, que antes dirigiu "O Velho" (1997) e "Latitude Zero" (2000). "O espectador só conhece e vivencia o aparelho da guerrilha, a ditadura está fora da tela, onisciente, a gente sente o cerco se apertando."
"Cabra-Cega", vencedor do concurso de filmes de baixo orçamento do MinC e de um prêmio da Prefeitura de São Paulo, custou R$ 1,2 milhão.

Guerrilha do Araguaia
Muito mais ambiciosa foi a produção de "Conspiração do Silêncio", que consumiu R$ 6 milhões para tentar reconstituir na selva amazônica os principais acontecimentos da guerrilha do Araguaia (1970-75).
Embora tome inteiramente o partido dos guerrilheiros, o filme é narrado do ponto de vista de um padre francês, que procura não participar do conflito.
O Exército não cedeu armas nem fardamento. "O governo do Pará nos emprestou armamento da PM. Fizemos fardas e capacetes e reformamos os carros militares. Levamos oito meses para construir a vila que está no filme", diz o diretor Ronaldo Duque.
Um dos trunfos de "Conspiração" são os depoimentos de ex-guerrilheiros, como o de José Genoino, hoje presidente do PT.


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