São Paulo, quarta, 22 de outubro de 1997.




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CINEMA
Filme de Paulo Thiago é a primeira produção brasileira a participar do evento, que acontece em Mar del Plata
'Policarpo' é indicado para festival argentino

ANNA LEE
da Sucursal do Rio

O filme "Policarpo Quaresma - Herói do Brasil", do cineasta Paulo Thiago, foi indicado para o 13 Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, que começa em 13 de novembro, na Argentina.
Paulo Thiago disse que essa é a primeira vez que o Brasil participa do festival. Foram indicados 23 filmes, segundo ele, alguns importantes, como o inglês "A Senhora Brown", de John Madden.
"A nossa participação significa a volta do Brasil ao mercado cinematográfico latino-americano, do qual nos afastamos pela má qualidade de comédias eróticas brasileiras lançadas na Argentina, nos anos 90."
O filme -que traz no elenco Paulo José, Giulia Gam, Bete Coelho e Aracy Balabanian, entre outros- é baseado no livro "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto. O lançamento está marcado para março de 98.
"Estamos esperando o início do ano letivo para tentar atingir o público de estudantes. Esse livro é leitura obrigatória nos colégios."
Thiago contou que resolveu filmar a história de Policarpo, quando, há três anos, releu a obra de Lima Barreto e descobriu que ela tratava de assuntos atuais.
Segundo o cineasta, o país vive um momento de revisão geral, em que a reflexão sobre a nacionalidade, a identidade cultural e social, a ética e o significado do nativismo devem ser prioridade.
"Barreto faz isso com profundidade, mas sem perder o humor."
Em "Policarpo Quaresma", Ricardo Coração dos Outros (Ylia São Paulo), compositor de modinhas do século passado, canta as glórias de Policarpo (Paulo José), defensor da causas brasileiras. Suas peripécias são tão variadas quanto excêntricas.
No Congresso, Policarpo propõe que o tupi-guarani seja a nova língua oficial do Brasil, provocando enorme confusão.
Na festa de noivado do general Albernaz (José Lewgoy), dança o "togolomango" -ritual dos índios- e seduz a noiva Ismênia (Luciana Braga).
Quaresma é considerado louco por enfrentar o almirante Caldas (Nelson Dantas), no arsenal da Marinha, onde trabalha.
No hospício, ensina história do Brasil e liberdade aos internos e convence o psiquiatra Mendonça (Jonas Bloch) de que loucura é uma questão de ponto de vista.
Policarpo tenta ainda reformar o campo e torna-se "fervoroso" defensor da República. Acaba fuzilado, mas antes ele e sua jovem afilhada Olga (Giulia Gam) descobrem que sempre se amaram, apesar de separados pelas convenções sociais do parentesco e da idade.
"Com sua fragilidade, sua graça e sua visão exageradamente ufanista, que chega a ser ridícula, e, ao mesmo tempo, com sua grandeza e coragem, Policarpo tem o perfil do herói nacional", disse Thiago.
O cineasta explicou que o personagem de Lima Barreto é um Quixote nacional, que sonha com uma pátria imaginária, entre o riso, a loucura e a fé no Brasil.
Ele assume que, ao investir cerca de R$ 3 milhões (que conseguiu por meio de patrocínios) no filme, se sentiu um pouco Policarpo.
"Sei que a fé que tenho no cinema nacional é 'policarpiana'. Mas realmente acredito que posso atingir o coração de muitas pessoas."



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