São Paulo, quinta-feira, 26 de outubro de 2006

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Crítica/"Shortbus"

Cameron Mitchell captura o transbordamento do tesão

CÁSSIO STARLING CARLOS
CRÍTICO DA FOLHA

O sexo no cinema costuma ser refém de dois tipos de representação. Ou a pornográfica, com seu modo mecânico de mostrar os corpos, associando-os a uma performance de circo, com malabarismos e excessos. Ou a filosófica, na qual o sexo se irmana à pulsão de morte quando levado às últimas conseqüências, como o fizeram com maestria Pasolini em "Salò" e Oshima em "Império dos Sentidos".
No cinema mais recente, diretores como Michael Winterbotton (em "Nove Canções"), Cathérine Breillat ("Romance" e "Sexo É uma Comédia") e Vincent Gallo (em "Brown Bunny") tentaram desculpabilizar o sexo, mas com resultados não mais que razoáveis.
Pois o que faltava ao sexo filmado é sua própria razão de ser: o prazer e a alegria, ausentes desde que a Aids impôs novos hábitos através do medo. E esses dois fatores é que fazem de "Shortbus" um filme não apenas ousado, mas delicioso.
A cena de abertura, focada numa Estátua da Liberdade em papel machê, da qual a câmera parte para planar sobre uma Manhattan de brinquedo, dá o tom da abordagem libertária e libertina com que o diretor John Cameron Mitchell aborda a sexualidade.
Em seguida, um conjunto de cenas de sexo retratadas sem pudores acentua a autenticidade de sua visão. Pois é pelo ângulo da liberdade que o diretor encara a sexualidade. Além do despudor das tramas sobrepostas e reunidas no clube de encontros que dá título ao filme, impera um amoralismo na sua abordagem.
Desde a cena de abertura, uma espécie de espírito infantil (antes, portanto, de qualquer moral) plana sobre o filme.
Aqui, os corpos se tornam o veículo de uma experimentação do desejo, e o gozo é a emanação de uma alegria. Desse modo, o sexo perde toda a sua carga de culpa e volta a ser aquilo que é: uma entrega física na qual nós humanos fazemos as pazes com a natureza.
Mais importante: raramente se viu no cinema um filme feito com tanto tesão.


SHORTBUS     
Direção: John Cameron Mitchell
Onde: hoje, às 22h, no Reserva Cultural Sala 2; amanhã, às 23h40, no Espaço Unibanco de Cinema 1; sáb., às 23h0, na Sala UOL de Cinema; qua. (dia 1), às 23h30, no Unibanco Arteplex 2


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