São Paulo, quarta, 28 de outubro de 1998

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TEATRO
Peça escrita e dirigida pelo brasileiro residente na Itália Maurício Paroni de Castro tem apresentações hoje e amanhã
"Pantagruele' mistura Rabelais com Oswald

NELSON DE SÁ
da Reportagem Local

Maurício Paroni de Castro, 37, deixou o Brasil há mais de uma década para dirigir teatro na Itália. Mas está sempre de volta para dirigir aqui -como fez em 92, com "Típico Romântico", e em 96, com "Náufrago", entre outras peças.
Também traz os espetáculos que produz na Europa, como "Lettere alla Fidanzata", com textos de Fernando Pessoa, e agora "Pantagruele, Panurgo e la Canga", que faz apenas duas apresentações em São Paulo, hoje e amanhã.
Em italiano e português, a montagem estreou há dois anos em Milão, no prestigioso Centro di Ricerca per il Teatro, CRT, e fez longa turnê pela Itália.
Inspirada no satirista francês Rabelais (1490-1553) e em Oswald de Andrade (1890-1954), cujo "Manifesto Antropófago" é lido no espetáculo, contrapõe duas "seitas": os que fazem ofertas à memória de Pantagruel, à memória do gosto, e os que adoram a TV.

Folha - A peça se baseia no clássico "Gargantua e Pantagruel", mas vê o texto à luz do "Manifesto Antropófago". Como foi a recepção disso pelo público italiano?
Maurício Paroni de Castro -
Excetuando alguns intelectuais, o italiano nem conhecia o "Manifesto", mas no geral viu como apropriado, porque é muito parecido com a obra de Rabelais. A peça foi feita em função de uma tensão social que existe na Europa, com os novos emigrados, que estão criando um novo mundo. Foi um sucesso popular e alguns críticos adoraram, mas, por exemplo, um da revista "Família Cristã", de lá, achou que eu estava preconizando canibalismo. Quer dizer, houve alguma ignorância, mas também uma ótima acolhida.
Folha - O que a "Família Cristã" escreveu sobre o "Manifesto"?
Castro -
O cara escreveu que eu pregava que o homem devia deglutir o seu semelhante, na letra (ri). Eu botei, no programa, o "ano da deglutição do bispo Sardinha", e o cara se queimou (ri).
Folha - Qual é a ponte que você faz entre Oswald e Rabelais?
Castro -
A ponte é a crítica à cultura dos "mass media". A crítica à remoção do próprio sofrimento e à colocação, sobre o vazio da remoção desse sofrimento, do consumismo. Isso já escrevia o Oswald, e o Rabelais também. O homem estava saindo do obscurantismo medieval e sonhava em poder comer, viver feliz, mas a sociedade industrial ocidental transformou isso em consumismo.
Folha - Qual é a sua relação com o CRT, depois de dez anos?
Castro -
Uma vez por ano eu faço uma peça. Agora tem o projeto de "Cândido", de Voltaire. Eu acredito que o Eldorado, da mesma forma como neste "Pantagruele", se encontra na praça da Sé. Quer dizer, é decadente, é a decadência do projeto iluminista, na sociedade de consumo.
Folha - Até pelo sotaque, nota-se o quanto você já está estabelecido na Itália. Mas não perde a sua ligação com o Brasil.
Castro -
Não perco.
Folha - Esta peça e "Lettere alla Fidanzata", antes, são maneiras de expressar essa ligação?
Castro -
Eu, até fisicamente, sou a mistura das duas culturas. Tudo o que sai da minha boca, como o sotaque, é naturalmente assim. Meu trabalho artístico é esse, elaborar essa consciência européia e brasileira. Por isso eu me identifico tanto com esta peça.
Folha - E o "Manifesto" cabe bem nessa elaboração.
Castro -
Lógico. Aliás, a gente não pode esquecer que isso tudo, o "Manifesto", o modernismo, teve a influência do Marinetti.


Peça: Pantagruele, Panurgo e la Canga Texto: Michella Marelli, Maurício Paroni de Castro e Claudia Botta Direção: Maurício Paroni de Castro Com: Gaetano D'Amico, Paola Baldini e outros Quando: hoje e amanhã, às 21h Onde: teatro Paulo Autran (av. João Dias, 2.046, Santo Amaro, zona sul, tel. 011/523-0099) Quanto: R$ 15. Estac. com manob. (R$ 5)



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