São Paulo, domingo, 31 de outubro de 2004

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ARTES PLÁSTICAS

Exposição na Itália, com telas recém-atribuídas ao pintor, reflete final trágico de mestre do chiaroscuro

Mostra reúne pela 1 vez últimas obras de Caravaggio

KELLY VELÁSQUEZ
DA FRANCE PRESSE, EM NÁPOLES

As últimas obras do grande mestre italiano Caravaggio (1573-1610), cujo realismo e crueza revolucionaram a pintura do século 17, estão no Museo Capodimonte, de Nápoles, em uma mostra que deixa intuir o final trágico de um dos pais da arte européia.
Sob o título "Caravaggio, Últimos Anos, 1606-1610", estão reunidas pela primeira vez em exposição 20 obras-primas do artista, nove cópias de versões perdidas e cinco pinturas recentemente atribuídas a ele, realizadas nos quatro anos finais de sua vida, depois de ter fugido de Roma por ter assassinado um companheiro de jogo de cartas em uma briga de rua.
A mostra, que ficará no museu até o dia 23 de janeiro de 2005 e depois segue para a National Gallery de Londres, é na realidade um percurso impressionante e de enorme força pictórica, no qual a criatividade surge como arma salvadora do artista, que morreu de malária aos 37 anos, depois de uma vida passada em antros.
"Criar arte era o único instrumento capaz de resgatá-lo. Nos seus últimos anos de vida, pintou cerca de 40 quadros, mas só a metade dos trabalhos é conhecida. Obras de grandes dimensões, pintadas com a esperança de obter o favor e o perdão do papa", diz Nicola Spinosa, curador da mostra.
Depois de fugir de Roma, Michelangelo Merisi, o Caravaggio, se refugiou em Nápoles e depois em Malta, onde pintou quadros enormes, intensos e espetaculares, entre os quais o retrato de Alof de Wignacourt, grande mestre da Ordem de Malta, incluído na exposição de Nápoles.
Em Malta, Caravaggio voltou a se envolver em uma briga e, por isso, teve de fugir de novo da prisão e regressar à Itália, para a Sicília, onde lhe foram encomendadas cinco obras, as quais constam da exposição no museu napolitano depois de terem sido recentemente atribuídas ao pintor.
"É um pintor de cérebro enfermo, que se aproxima das pessoas vestido e armado", escreveu Niccolo Giovanni, um nobre siciliano para quem Caravaggio pintou um "Ecce Homo", parte de uma coleção privada e exibido pela primeira vez ao público nesta mostra.
Entre as últimas criações do grande mestre do chiaroscuro, cujo estilo atrevido e cru se converteu em ícone da arte, poucas estão ausentes, como "João Batista Degolado", quadro roubado em Palermo em 1969 e exibido na mostra em forma de cópia pintada por Paolo Gerasi em 1627.
No mesmo período, o artista renunciou às cores chamativas e começou a empregar uma linguagem mais simplificada, abrindo mais espaço à obscuridade e a detalhes de rostos, mãos, expressões, momentos especiais.
Período que viu surgir quadros como "Anunciação", do Museu de Belas Artes de Nancy (França), "Davi com a Cabeça de Golias", da Galeria Borghese (Roma), "A Negação de Pedro", do Metropolitan (NY), telas agora reunidas e cuja tinta ainda nem havia secado quando Caravaggio decidiu partir de volta a Roma acreditando que seria perdoado pelo papa.
Reza a lenda que o mestre, alquebrado pela febre, só morreu nos pântanos de Porto Ercole, a poucos quilômetros de Roma. Trazia embaixo do braço dois óleos, um retrato da Virgem e Madalena e um de são João Batista, ambos destruídos por urubus.


Tradução de Paulo Migliacci

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