São Paulo, domingo, 29 de agosto de 2004

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"O Abismo Invertido", de Adriano Schwartz, discute "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago, para tentar resgatá-lo do juízo estreito de seu próprio autor

Um temível sabotador de romances

Luiz Costa Lima
especial para a Folha

É muito raro que um crítico consiga o resgate da consideração de um autor. A frase parecerá misteriosa para os que não conheçam os bastidores literários. Para quem deles não participe será intrigante que um Prêmio Nobel recente precise de resgate. Procuro uma explicação rápida. Em entrevista de 1997, cujos trechos básicos são reproduzidos por Alcir Pécora no prefácio a "O Abismo Invertido", de Adriano Schwartz, Saramago afirmava que "a figura do Narrador não existe", porque "um livro é, acima de tudo, a expressão de (...) seu autor". Tomando partido na discussão sobre a importância exclusiva ou partilhada da intenção autoral, Saramago se identificava com a posição mais conservadora entre os intérpretes -cujo paradigma é Hirsch Jr., em "Validity in Interpretation" (1967). A decisão pareceria surpreendente pois, ideologicamente, Saramago antes se define como esquerdista. Mas quem terá dito que as criaturas humanas são coerentes e uma posição politicamente avançada se reproduza noutras frentes? Daí que Pécora esteja certo em afirmar que a tomada de posição de Saramago supõe o controle do romance por quem o tenha feito. Do que decorre, como recordará Schwartz, o "prejuízo hermenêutico" à sua obra -o que se diga sobre ela ou concordará com o autor ou contará com sua reprovação.

Intertextualidade
Suponho que para muitos isso pareça uma discussão bizantina. Mas não é. O problema da intencionalidade autoral transcende questões de estética, pois concerne à relação entre o agente e a linguagem. Há muitas décadas alguém escreveu: "A fala fala", e não apenas o poeta. Também seria justo dizer: em matéria de linguagem, não há propriedade privada. Mas, se enveredarmos por esse caminho, o livro de Schwartz perderá uma das poucas possibilidades de ser comentado. Como isso não deve suceder, deixo apenas esboçado o debate em que seu livro se situa e me concentro em como desenvolve seu argumento. Antes, porém, se advirta que "O Abismo Invertido", fugindo de generalidades estéreis, não aborda a integralidade da obra de Saramago, senão que se concentra em seu grande romance, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984). Para tanto, o crítico teve a felicidade de indagá-lo a partir de uma única ferramenta: a intertextualidade, isto é, a integração realizada por um texto de formulações já presentes noutros. No caso, a intertextualidade supõe lidar com as odes do heterônimo Ricardo Reis, com a vasta produção de seu autor efetivo, Fernando Pessoa, de um poeta presente no fundo da trama, Camões, bem como com o romance de um certo Herbert Quain, inventado por Borges. Já a simples enumeração dos parceiros mostra que, em "O Ano da Morte", a intertextualidade envolve a questão do fictício e do ficcional -Reis e Quain são seres fictícios, habitantes do território específico da ficção. A primeira habilidade do crítico esteve não só em haver reconhecido, para seu argumento, a importância de Borges -a partir da referência explícita a Herbert Quain no romance de Saramago- como, sem se desviar da questão teórica sobre o estatuto do ficcional, em ater-se ao mínimo indispensável. Só assim seu texto se tornou suficiente para uma abordagem fecunda. De acordo com a posição assumida por Saramago, o narrador de seu romance não poderia ser menos do que onisciente. Assim, o fantasma de Pessoa, Reis, sua "cria", e Camões, enquanto canonizado, teriam de ser diminuídos, o quanto possível destroçados. Pois, acrescenta Schwartz, o narrador é onisciente e tendencioso. A operação do narrador teria êxito -e certos estariam os críticos de Saramago que consideram seus romances secundários porque meros porta-vozes da ideologia do autor- caso não entrasse em cena o recurso constante da inversão. Assim, conforme o propósito do narrador de "destruir" Ricardo Reis, por haver pregado em suas odes a indiferença ante o mundo, o resultado seria que as ações do protagonista terminariam por ridicularizá-lo. Mas, pelas freqüentes inversões a seu ideal de indiferença, a conduta de Reis, estimulada pelas personagens femininas, Lídia e Marcenda, antes se caracteriza pelas mudanças que nele se operam. Poder-se-ia então dizer que, se o Saramago teórico se auto-sabota, felizmente o romancista é muito melhor que o pensador; que, por isso, concede ao protagonista uma liberdade que o narrador coibiria.

Sutileza crítica
Minha explicação tem, contudo, o defeito de desconsiderar que o resgate do romance depende da sutileza de seu crítico. Acrescentar-se-ia: Reis é obrigado a mudar porque, estando vivo, é forçado a dar-se "conta de que "a pequenez do real circundante" também pode ser aterradora". Mas a explicação continua grosseira. Não é por estar vivo que Reis se obriga a ver o aterrador do mundo. A isso o força o próprio território da ficção. É a ficção que impõe ao protagonista ver o que não vêem as pessoas apenas por estar vivas! Sem que possa aqui demonstrá-lo, é o narrador, em suma, que tem sua onisciência comprometida, sendo, afinal, aquele que "menos conhece sua principal personagem". E, como através do conto de Borges, a trama de "O Ano da Morte" absorve um aspecto de romance policial, torna-se possível a Schwartz assinalar que o narrador não só perde seu estatuto de sabe-tudo como se torna o criminoso, que encontra em Ricardo Reis sua vítima.
É da cadeia de inversões de que esta é a final que depende a força do romance. Contra o mau pensador que é, Saramago conta a seu favor que tenha sabido fazer a fala falar. Para que assim se reconheça, contudo, teve de dispor de algo fora de si: a paciente inteligência de seu crítico.


Luiz Costa Lima é ensaísta, crítico e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ). É autor de "O Redemunho do Horror" (ed. Planeta) e "Intervenções" (Edusp). Escreve regularmente na seção "Brasil 505 d.C." (depois de Cabral), do Mais!.

O Abismo Invertido
184 págs., R$ 29,00 de Adriano Schwartz. Ed. Globo (av. Jaguaré, 1.485, 3 andar, CEP 05346-902, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/3457-1545).



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