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Marcos Caramuru de Paiva

A nova geração chinesa

Sem reformas, o país continuará a crescer, mas perderá gás e não consolidará o espaço que conquistou

Os governantes da China nos próximos dez anos serão anunciados daqui a um mês, no Congresso do Partido Comunista que se inicia em 8 de novembro.

Os chineses costumam chamar os líderes que entram de "a nova geração". Isso sinaliza, a meu ver, duas coisas: a primeira, que na China os políticos caem na aposentadoria compulsória. Tem que haver renovação. A outra, que no câmbio de governantes está implícita uma mudança de mentalidade. A ver.

O que se sabe até o momento é que a maioria expressiva dos membros das duas esferas decisórias mais altas do partido -o Politburo e o Comitê Permanente- vai mudar. Xi Jinping, hoje vice-presidente, ex-chefe partidário numa província em que a economia é dominada pela iniciativa privada, Jejiang, deve ser o próximo presidente.

Dois reformadores de peso, Li Keqiang e Wan Qishan, estarão no topo da pirâmide decisória. Mas na China, como em qualquer parte do mundo, a política tem sua complexidade, e há diferença entre o que se pretende e o que se pode fazer.

Quando o governo mudou pela última vez, em 2002, os órgãos decisórios máximos também tiveram a sua composição significativamente alterada. Dos então sete membros do comitê permanente, apenas Hu Jintao, nomeado presidente, ficou no cargo. Hu, em tese, deveria deter um extraordinário capital de poder.

Mas a era dos grandes líderes encerrou-se em 1985, quando a Constituição do partido estabeleceu o princípio das decisões colegiadas. Além disso, Hu teve que enfrentar um Comitê Permanente ampliado e a sobrevida política de seu antecessor, Jiang Zemin, que manteve, ainda por três anos, a presidência da comissão militar. A transição de líderes só se completou em 2005.

Muitos afirmam que o governo que ora se encerra fez pouco em matéria de reformas. A China, é fato, tornou-se a segunda maior economia do mundo, mas cresceu em razão, sobretudo, de mudanças anteriores e de uma economia internacional favorável.

A bem da verdade, realizaram-se reformas de impacto social, como a da Previdência. Os trabalhadores rurais ganharam direito à aposentadoria sem contribuição prévia. Até 2009, a Previdência era tema apenas municipal.

Quando os contribuintes se transferiam de cidade, perdiam os benefícios acumulados. Agora, é possível manter parte dos benefícios mesmo na migração entre províncias (Estados).

Nos próximos anos, a China precisará voltar às reformas econômicas: reduzir a força das estatais, modernizar o sistema financeiro e o mercado de capitais, mexer na lógica fiscal. Sem reformas, o país continuará a crescer, mas perderá gás e não consolidará o espaço que conquistou na economia mundial.

Não é simples, contudo, ousar num modelo em que as decisões são colegiadas e em que se trabalha sempre com a perspectiva de formar consensos.

Os reformadores terão duros desafios pela frente. O que vão fazer e como vão fazer para implantar suas propostas são ainda grandes questões. Os números da economia e a força internacional da China no futuro serão, em larga medida, só consequência das respostas que a elas possam ser dadas.

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