São Paulo, domingo, 04 de janeiro de 2004

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ARTIGO

Cuba resiste, solidariamente

FREI BETTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A Revolução cubana completa, contra vento e maré, 45 anos, sobre uma quádrupla ilha: a geográfica, a política (Cuba é o único país socialista do Ocidente), a que decorre da exclusão da OEA e a imposta pelo bloqueio americano. Em condições tão adversas, é surpreendente que tenha resistido a dez presidentes dos Estados Unidos, a 20 diretores da CIA e ao efeito dominó causado pela queda do Muro de Berlim.
O motivo é o apoio popular à soberania encarnada na figura carismática de Fidel.
Dos 11 milhões de habitantes, a minoria rica há tempos abandonou a ilha. A maioria sabe que, apesar das dificuldades, o país apresenta índices sociais superiores aos das nações mais ricas do continente.
Segundo a ONU (julho/2003), a esperança de vida em Cuba é de 76,5 anos, inferior apenas à da Costa Rica (77,9).
É a nação mais alfabetizada da América Latina: 96,8% dos adultos. Dispõe de 1 médico para 400 habitantes. A mortalidade infantil atinge 7 em cada 1.000 nascidos vivos -o mesmo índice sueco. Todo o sistema de educação e de saúde é inteiramente gratuito.
Se Cuba é socialmente tão avançada, a ponto de merecer elogios de João Paulo 2 quando a visitou, em 1998, por que há quem fuja do país? O Brasil tem 3 milhões de cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. A diferença é que a economia cubana, socializada, não admite turismo individual no exterior, leia-se, evasão de divisas para satisfação própria.
O que não impede que cubanos viajem mundo afora, em missões científicas, artísticas, comerciais e diplomáticas, em geral bancados pelo Estado.
Hoje, há médicos e professores cubanos em mais de 40 países do Terceiro Mundo, inclusive no Brasil, trabalhando em áreas consideradas "desprezíveis" por muitos profissionais formados no capitalismo.
Dos que se foram de Cuba, fascinados pelo "american way of life", não conheço nenhum que esteja empenhado em melhorar as condições dos pobres nos países que os acolheram. Pelo contrário, os cárceres dos EUA estão repletos de cubanos evadidos.
Viver em Cuba exige altruísmo, como viver em comunidade ou, por exemplo, num convento. O "nosso" deixa pouco espaço para o "meu". Como o egoísmo é a nossa tendência negativa mais forte, não são todos que suportam a idéia de que nunca poderão ficar ricos e desfrutar das quimeras que o dinheiro promete.
Para quem é rico no Brasil, por exemplo, onde os 10% mais privilegiados possuem 42% da renda nacional (e os 10% mais pobres dividem entre si 0,9%), viver em Cuba é estar condenado ao inferno: nada de carro do ano, férias no exterior, consumo supérfluo ou o prazer de ingerir, em poucos minutos, uma bebida mais cara que o valor do salário mensal do empregado que a serve.
Para quem é classe média, é padecer no purgatório: a burocracia, o partido único, as dificuldades impostas pelo bloqueio. Mas, para quem está desempregado ou é assalariado, é conhecer o céu: em Cuba não há desemprego, favelas e violência urbana.
E todos têm assegurados os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Qual outro país no continente garante tais direitos humanos ao conjunto de sua população?
Em 45 anos, a Revolução cometeu muitos erros, mas nenhum tão grave para levá-la ao fracasso. Dizia-se que Cuba se mantinha graças à União Soviética. Esta desapareceu e nem por isso a Revolução submergiu.
Incluo-me entre os que condenam os fuzilamentos que ali ocorrem. Mas não ouço o coro de protestos lembrar que, enquanto governador do Texas, Bush assinou 152 condenações à morte.
Nenhum de nós é capaz de imaginar uma base cubana encravada na Califórnia. Porém o senso comum parece admitir, sem indignação, que haja uma base americana em Guantánamo, agora transformada em masmorra de afegãos, supostos terroristas privados do mais elementar direito de defesa.
Pode-se criticar Cuba em muitos aspectos, mas não há como exigir distensão política enquanto a espada de Dâmocles do bloqueio americano pesar sobre o seu pescoço. Se Cuba é tão horrível, por que atrai mais turistas que o Brasil, e a Casa Branca não permite, contrariando todas as leis internacionais, que a ilha mantenha relações diplomáticas e comerciais com o resto do mundo?
Com ou sem Fidel, Cuba terá de mudar, pois a história é implacável. Espero, contudo, que seu futuro não seja o presente do resto da América Latina: democracias formais cercadas de miséria, drogas, violência e desemprego por todos os lados.
E que, no futuro, permaneça, à saída do aeroporto José Martí, em Havana, este painel de boas-vindas a quem chega ao país: "Esta noite, milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana".


Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor, autor de "Gosto de Uva", entre outros livros, e assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


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