São Paulo, domingo, 06 de outubro de 2002

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RELIGIÃO

Grupo conservador espera ampliar aceitação com a santificação do monsenhor Escrivá; mais de 200 mil devem ir à cerimônia

Papa canoniza hoje fundador do Opus Dei

PHILIP PULLELLA
DA REUTERS, NA CIDADE DO VATICANO

O grupo conservador católico Opus Dei sente que foi injustamente incompreendido e acha que começará a ser mais aceito. O papa João Paulo 2 vai canonizar hoje seu fundador, o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer. Mais de 200 mil membros e partidários do grupo, cujo nome significa "obra de Deus", devem ir à praça São Pedro.
Escrivá morreu em 1975 e foi beatificado em 1992, um tempo recorde. Críticos disseram que essa rapidez comprovava o poder do Opus Dei no Vaticano. Ele foi, porém, um dos primeiros grupos a tirar proveito das novas regras que agilizaram os processos de beatificação e canonização.
O Opus Dei sempre foi acusado de ter uma agenda secreta, fundamentalista e perigosa. Parlamentares italianos de esquerda diziam que o grupo era semelhante a uma loja maçônica, ou pior, e queriam a sua proscrição.
O padre Flávio Capucci transformou na grande causa de sua vida o esforço para fazer a igreja reconhecer a santidade de Escrivá. Ele é um dos cerca de 1.800 sacerdotes do Opus Dei. Os outros 84 mil membros do grupo no mundo são católicos comuns, muitos deles profissionais liberais.
O grupo já foi acusado com frequência de tentar formar uma ""igreja dentro da igreja", para promover sua agenda conservadora. ""Até 1982, não tínhamos lugar preciso na estrutura da igreja e, por isso, despertávamos suspeitas", disse Capucci. Em 1982 o papa transformou o Opus Dei na primeira prelazia pessoal, uma posição jurídica única na igreja, que se distingue daquela de uma ordem religiosa tradicional.
O jornalista italiano Rodolfo Brancoli, que acompanha o Opus Dei há quase 50 anos, disse que ""vem ocorrendo uma mudança substancial na percepção que se tem do Opus Dei". Brancoli observou que jornais italianos tradicionalmente de esquerda, como o ""La Repubblica", mudaram de posição em relação do grupo.
O Opus Dei era acusado de fomentar uma mentalidade carreirista, inspirando uma ""rede de contatos" cujos integrantes oravam juntos, se divertiam juntos e ajudavam-se nos negócios.
Kenneth Woodward, editor de religião da ""Newsweek", segue criticando. Ele escreveu que ""a riqueza e a influência do Opus Dei silenciaram a maioria dos adversários do grupo" no Vaticano.
Escrivá, fundador do Opus Dei na Espanha em 1928, dizia que os católicos podem ser santos se viverem vidas comuns e buscarem o sagrado em tudo o que fizerem, quer sejam banqueiros ou padeiros.
O papa João Paulo 2 demonstra ter o Opus Dei em alta conta. Seu porta-voz, Joaquín Navarro-Valls, é talvez o mais conhecido membro do Opus Dei no mundo.
Capucci nega as acusações de elitismo feitas ao grupo. ""Somos uma fotocópia da estrutura social que há em qualquer país. Se você for à África, encontrará membros que não são ricos; na América Latina, também." Parte da controvérsia que cerca o grupo se deve ao fato de que, embora seus membros não sejam padres, alguns assumem votos semelhantes aos deles e se comprometem a abster-se de relações sexuais e a viver na humildade e pobreza.


Tradução de Clara Allain


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