São Paulo, domingo, 24 de junho de 2001

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ENTREVISTA

Reverendo Chad Varah, criador do serviço de prevenção ao suicídio, quer afastar influência da religião sobre a organização

"Pai" mundial do CVV critica rumo da ONG

ANA SAGGESE
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES

O reverendo Chad Varah, mítico inventor dos serviços de prevenção ao suicídio, continua ativo e inquieto aos 89 anos. Em carta a ser apresentada no final deste mês ao conselho da organização Samaritanos, que ele mesmo fundou, e na entrevista abaixo, ele acusa a atual direção da organização de não ter escrúpulos, agir por ""ambição", tentar alijá-lo da entidade e violar um dos princípios de sua doutrina: o atendimento sem cunho religioso.
Samaritanos é o nome britânico da ONG cuja similar brasileira funciona desde o início dos anos 60 como CVV, Centro de Valorização da Vida.
Pastor anglicano, Chad Varah começou seu trabalho em 1936, quando foi chamado para oficiar o funeral de uma menina de 14 anos. A garota havia se suicidado ao ficar menstruada pela primeira vez. Desesperada, pensou que havia contraído uma doença.
Esse episódio chocou de tal maneira o jovem reverendo que ele resolveu dar aulas de educação sexual para jovens. Descobriu depois, numa notícia de jornal, que três pessoas se suicidavam a cada dia em Londres. Foi assim que, em 1953, numa pequena sala munida de telefone na igreja de St. Stephen, no centro londrino, ele fundou os Samaritanos.

Cor da batina
Quinta-feira, 7 de junho, dia de eleições gerais no Reino Unido. Duramente bombardeada durante a Segunda Guerra, a igreja de St. Stephen foi projetada pelo arquiteto sir Christopher Wren no século 17. No seu interior, apenas um funcionário e um coro que ensaia músicas sacras. Chad Varah deverá celebrar o culto das 12h30. A reportagem tentava falar com o reverendo havia mais de um mês. Assessores dos Samaritanos informavam que ele não dava mais entrevistas e estava muito doente.
Pelo vidro da torre central, um sol fraco aquece os bancos ao redor do púlpito. Um funcionário informa que Varah chegou e pode atender. A igreja continua vazia. A reportagem da Folha é conduzida a uma pequena sala, onde está um senhor de idade avançada, bastante alquebrado, mas que irradia entusiasmo. Diz que adora o Brasil, país que visitou no início dos anos 70. O funcionário interrompe para saber que batina o reverendo quer usar. "Vermelha, da cor da bandeira", é a resposta. Ao contrário da informação oficial, o reverendo aceita o pedido de entrevista, que aconteceu no dia seguinte, na igreja.
Os Samaritanos trabalham com voluntários e vivem de doações. Estão representados em 361 sedes, com cerca de 31 mil voluntários espalhados por 41 países. Os pressupostos são de que o atendimento é não-profissional e não-diretivo (ou seja, o voluntário ouve e procura compartilhar sentimentos, mas não dá conselhos a quem procura o serviço). Chad Varah não tem lutado apenas contra a osteoporose e um câncer de próstata de que é vítima. Apesar do sucesso da organização que idealizou e fundou, combate o que acredita ser uma inclinação atual para submeter o atendimento a propósitos religiosos. Leia a seguir trechos da entrevista.

Folha - Por que as pessoas se matam, afinal?
Chad Varah -
Quando as pessoas se sentem muito estressadas, quando não conseguem ter nenhuma esperança de mudança, estão sozinhas, sem um amigo, elas tentam se matar. Não cabe a nós condená-las, mas ajudá-las.

Folha - Como começou o serviço dos Samaritanos?
Varah -
Quando eu comecei os Samaritanos, ficou claro que, na maioria dos casos, não se tratava de pessoas com distúrbios mentais, não precisavam de um psiquiatra. Precisavam de um conselho, e eu as aconselhava. Eu tinha só minha secretária para me ajudar quando inaugurei o telefone de emergência. Mas contávamos com uma enorme publicidade porque eu tinha trabalhado com muitos jornalistas e contei a eles o que estava fazendo. Então, em 2 de novembro de 1953, o telefone começou a tocar e as pessoas começaram a aparecer. Nós ficamos muito sobrecarregados. Felizmente, não só pessoas que vinham buscar ajuda apareceram, mas também pessoas para oferecer ajuda. Eu não sabia o que elas poderiam fazer, exceto oferecer café para as outras pessoas e sentar perto delas. E é claro que esses voluntários começaram a conversar com os clientes.
Depois de três meses, eu perguntei para Vivien, minha secretária: "Estou conseguindo atender a todos, o que está acontecendo? O número de pessoas está diminuindo?". Ela respondeu: "Muitas pessoas que vêm vê-lo vão embora uma hora depois sem precisar mais falar com o senhor". "Por quê?" E ela me disse: "Bem, eles conversam com os voluntários". "Qual é a mágica? O que esses voluntários falam para eles?", eu perguntei, e ela me respondeu: "Nossa! Como você está triste! Como está mal, o que está acontecendo com você? Coisas assim". Eles não sabiam, mas o que faziam era terapia de escuta. Davam toda a atenção de que as pessoas precisavam naquele momento e não faziam nenhuma recomendação. Chamei essa terapia de "befriending" (agir como amigo).

Folha - Quantos voluntários o sr. tinha na época?
Varah -
Cinquenta. Em 1 de fevereiro de 1954, chamei-os e disse, brincando: "Quem chamou vocês aqui? Tomando posse da minha missão e fazendo melhor do que eu? Como punição passarei o trabalho para vocês". Fiquei só com os casos de pessoas que precisassem de um aconselhamento especial. Os voluntários ficaram apreensivos, mas disse a eles que não se preocupassem, pois simplesmente continuariam fazendo a mesma coisa.

Folha - O que mudou no atendimento desde então?
Varah -
Nada, enquanto eu estava na direção. Não estou a par das mudanças hoje. Um voluntário estrangeiro me disse que poucas pessoas procuram o atendimento pessoalmente. Eu suponho que seja mais fácil falar pelo telefone. Mas naqueles dias as ligações eram muito caras, e as pessoas não estavam acostumadas a usar o telefone. Quando comecei a expandir os Samaritanos no exterior, tive muito sucesso em países como Sri Lanka e Índia, onde as pessoas não tinham telefone. No decorrer das viagens para propagar a idéia de "befriending", fui pela primeira vez ao Brasil e conheci uma pessoa maravilhosa: Jacques Andrè Conchon, o fundador do Centro de Valorização da Vida, o CVV, organização similar à dos Samaritanos.

Folha - O sr. tem um neto que mora e trabalha no Brasil. Ele atua no CVV-Samaritanos?
Varah -
Tenho cinco filhos (trigêmeos, um filho e uma filha). O mais novo de um dos meus trigêmeos, William, sempre se interessou por religião e trabalho social. Ele não atua nos Samaritanos porque nós proibimos qualquer ligação com religião. A religião intimida as pessoas. Nossa regra possibilita realizar o trabalho em países não cristãos. Não poderíamos ter quatro filiais na Malásia, que é muçulmana, 13 sedes em Sri Lanka, que é budista. Nós não temos religião, não pregamos, não temos nada a dizer, apenas escutamos e tentamos entender o que você está sentindo. Isso não interessa a William, que é muito religioso e está ligado a uma organização de serviço social com prática religiosa. Ele cuida e dá aulas de religião para meninos de rua numa região muito perigosa na periferia de Recife. Tem feito progressos na língua portuguesa e arrumou uma namorada brasileira. Estou com um presente para ele, um volume raro que encontrei de "Os Lusíadas", de Camões.

Folha - O sr. é contra o suicídio mesmo para doentes terminais?
Varah -
Não temos o direito de decidir pelas pessoas. Tudo o que dizemos a elas é que nos importamos com elas e que estamos aqui para ajudá-las, se elas nos permitirem. Não somos uma agência de prevenção ao suicídio. A decisão não é nossa. Nossa decisão é tentar mostrar que a vida pode ser boa e que nosso método é eficaz.
Durkheim [o sociólogo francês Émile Durkheim, 1858-1917" dizia que o número de suicídios tenderia a ser estável. Com exceção dos períodos de guerra, quando o índice se reduz, e em tempos de revolução e turbulência social, quando aumenta. Eu mesmo nunca imaginei que uma organização com mais de 200 sedes, trabalhando 24 horas por dia, 365 dias por ano, pudesse diminuir os índices de suicídio no país.

Folha - O serviço dos Samaritanos pode gerar uma dependência nas pessoas que se valem dele? Como enfrentar esse problema?
Varah -
É responsabilidade do diretor de cada sede ensinar aos voluntários como se posicionar em relação às pessoas. Há um problema quando as pessoas retornam com frequência. Nós tentamos resolvê-lo com a mudança de voluntários. O cliente nunca será atendido pela mesma pessoa.

Folha - A seu ver, quando o trabalho começou a ser subordinado a fins religiosos?
Varah -
Começaram a usar as idéias dos Samaritanos como pretexto para estimular as pessoas a frequentar a igreja. Existe uma organização na Europa chamada Ifotes (Federação Internacional de Serviços Telefônicos de Emergência) que estimula a pregação. Na Escandinávia, as pessoas que atendem o telefone são pastores. Eu não sei se isso mudou recentemente, mas os pastores não eram pessoas preocupadas com o suicídio, só faziam isso porque eram mandados pelos superiores. E o trabalho da igreja é irrelevante na prevenção ao suicídio. Quando fui fazer uma cirurgia no estômago e no coração, decidiram unir as sedes internacionais dos Samaritanos com a Ifotes e a Life Line (Linha da Vida), uma organização similar. Tudo o que me resta é andar em círculos com uma muleta. Estou tentando resgatar os Samaritanos das mãos da igreja. Tento persuadir os Samaritanos britânicos a não terem conexão com eles. Eles não têm escrúpulos, acho que estavam esperando que eu morresse alguns anos atrás, mas não morri. E, como não conseguiram me matar, vão continuar tendo de lidar comigo. Quando fiquei doente, passei o controle da Befrienders International (nome dos Samaritanos fora do Reino Unido) a uma mulher britânica que trabalhava para a organização em Hong Kong. Confiava nela, mas ela fez mudanças pelas minhas costas, fundou uma nova organização e a registrou aqui no Reino Unido. Agora, estou tentando convencer os Samaritanos britânicos a colocá-la para fora. Temos um ditado que diz "longe da vista, longe da mente", e infelizmente eu não estava vendo nem falando com frequência com os Samaritanos. Agora as pessoas não dão importância a mim. Antigamente, nas conferências da Universidade de York, eu sempre estava no palco com os outros presidentes e psiquiatras. De uns anos para cá, não estou mais e não posso falar. Somente em pequenos seminários, com menos de cem pessoas.

Folha - Por quê?
Varah -
Porque as pessoas têm ambição de poder e autoridade. Levei um ano para persuadir as 203 sedes das ilhas britânicas a me deixar encontrar o conselho. Depois de um ano me ignorando, consegui encontrar o comitê executivo para propor uma petição.

Folha - No Brasil tem acontecido algo parecido?
Varah -
O Brasil foi o único país em que me senti confortável para vincular o nome dos Samaritanos ao do CVV, porque eles aceitaram os nossos princípios de "befrienders", sem compromissos com pregação religiosa. Quando eu fiquei incapacitado de visitar o Brasil, algumas coisas ruins aconteceram. A organização se dividiu. Agora existem 57 sedes: 50 sedes do CVV-Samaritanos, seis do Amigo Anônimo e uma outra independente. Espero que todas sigam o mesmo princípio.

Folha - Tem crescido muito o número de suicídios entre homens nos últimos dez anos. Por quê?
Varah -
Comecei meu trabalho como um terapeuta sexual, eu sabia que pessoas com problemas sexuais tinham mais tendência ao suicídio. Eles ligavam e, se um homem atendesse, desligavam. Se uma mulher atendesse, eles tentavam se abrir com ela. Depois, tomei conhecimento de que as voluntárias não se sentiam à vontade com aquele tipo de ligação. Em algumas ligações a pessoa perguntava qual era a cor da calcinha, por exemplo. O que, na minha concepção, é uma pergunta muito suave. Algumas voluntárias desligavam o telefone. Então, fiz uma reunião e disse que essas ligações mereciam ser recebidas por pessoas que soubessem lidar com elas e não por quem se ressentisse. Disse que, se alguém ligasse perguntando a cor da calcinha, o telefone não deveria ser desligado. Eu chamava de "Brenda" todas as mulheres que lidavam bem com esse tipo de ligação. Faziam anotações sobre as ligações, sabiam quem usava nome falso etc. E elas provaram ser muito eficientes. Mas surgiu uma objeção às "Brendas", que chegaram a ser acusadas de encorajar as pessoas a um tipo de relação sexual pelo telefone, o que não era verdade. O resultado é que o conselho impediu a sede de receber esse tipo de ligação. Tudo o que as pessoas podem fazer é ligar para um desses entretenimentos estúpidos que dizem: eu vou fazer você gozar em 30 segundos. Mas quem quer gozar em 30 segundos [risos]? Os Samaritanos não conseguiram continuar algo que comecei e planejei com cuidado. Acho que eles são os culpados pelo crescimento do suicídio entre os homens.

Folha - O sr. acha que o problema pode ser resolvido com aulas de educação sexual nas escolas?
Varah
- Essas aulas são muito pobres, e não cabe a nós dizer o que as escolas ou os pais devem fazer. Fazer sexo é usado como equivalente de foder, mas existem muitas maneiras de fazer sexo. Algumas delas são impróprias para adolescentes, mas, no minuto em que você define que fazer sexo significa apenas penetração, está desencorajando o adolescente a fazer outras coisas.

Folha - Em quem o sr. votou nas eleições britânicas de 7 de junho?
Varah -
Eu votei em William Hague, do Partido Conservador. Porque parecia ser o único que queria proteger a nossa rainha, a nossa dignidade e o nosso dinheiro e impedir que sejamos caçoados pela União Européia. Eu não tenho muito interesse em política, não confio em políticos.

Folha - Qual foi a sua impressão do Brasil?
Varah -
Achei um país maravilhoso. Se fosse jovem, adoraria morar lá. Quando fui para o Brasil, já tinha uma certa idade e agora vou fazer 90 em novembro. De todos os países da América do Sul, é o mais promissor. Obviamente, existem coisas que eu desaprovo, como a destruição da floresta amazônica e o problema da pobreza. Mas posso dizer uma coisa, o menor índice de suicídios no Brasil é nas favelas, porque você não se mata se tem alguma esperança, e as pessoas que não têm nada sempre têm esperança de que alguma coisa melhor aconteça. São pessoas mais amigáveis. E o Brasil foi o único país do mundo que conseguiu criar uma organização igual à minha.



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