São Paulo, domingo, 27 de maio de 2007

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Ex-opositor de Chávez se beneficia com fim da RCTV

TV de magnata que articulou golpe ficará com publicidade da emissora que fecha hoje

Cisneros, hoje aliado de Chávez, herdará mercado de US$ 163 milhões; protesto em Caracas reúne milhares contra a cassação do canal


FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O fim do canal oposicionista RCTV, previsto para as 23h59 de hoje (0h59 de amanhã em Brasília), deixará sua milionária fatia publicitária para o único concorrente em nível nacional, a Venevisión. A emissora pertence a Gustavo Cisneros, o magnata que, de articulador do golpe frustrado contra Hugo Chávez, em abril de 2002, transformou-se em aliado tácito do presidente venezuelano.
Ontem, a Venevisión praticamente ignorou os manifestantes que tomaram as ruas do centro de Caracas. Diante da RCTV, milhares protestaram contra o fim da concessão, medida rechaçada por 69% da população, segundo pesquisa do instituto Datanálisis.
Chamados no passado de "os quatro cavaleiros do Apocalipse" por Chávez, os canais privados Venevisión, RCTV, Televén e Globovisión tiveram uma atuação bastante coordenada entre 2002 e 2004, período que inclui o golpe de Estado, a greve petroleira e o referendo para tirar o mandato de Chávez.
Durante essa época, Cisneros, 61, era um dos principais porta-vozes da oposição venezuelana, cujo espaço havia sido tomado pelos meios de comunicação no vazio deixado pela decadência dos partidos tradicionais. No golpe, reuniu-se com o empresário Pedro Carmona, que assumiu o país durante o afastamento de Chávez.
"O verdadeiro canal golpista foi o canal 4. Gustavo Cisneros era o chefe da conspiração de abril de 2002. Era no seu canal que se reuniam os conspiradores; foi o eixo midiático da campanha contra o governo", disse à Folha Teodoro Petkoff, diretor do jornal oposicionista "Tal Cual" (leia sua entrevista no caderno Mais!), mas que não apoiou o golpe que afastou Chávez do poder por dois dias.
Anteontem, a Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações) renovou a concessão da Venevisión até 2012, um ano antes da próxima campanha presidencial, da qual Chávez pretende participar mudando a Constituição para incluir a reeleição indefinida.

Transformação
A ação de Cisneros começou a mudar na época do referendo, quando se reuniu com Chávez, em encontro viabilizado pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. Para observadores da polarizada mídia local, a conversa foi um divisor de águas.
O giro de 180 da Venevisión -e da Televén, de menor alcance- ficou claro na campanha presidencial do ano passado, quando Chávez foi reeleito. Segundo um relatório da União Européia sobre o pleito, a TV de Cisneros "dedicou 84% do tempo de informação política à posição oficial e apenas 16% à coalizão [oposicionista] Unidade".
"O tom da Televén e da Venevisión foi pouco crítico em geral com as coalizões, mas, do ponto de vista quantitativo, as duas favoreceram abertamente a posição governista", diz o informe da UE.
Já sobre a RCTV, o relatório mostra a tendência inversa: a oposição recebeu 69% do tempo, em tom geralmente positivo, enquanto o governo teve 29%, na maior parte das vezes em tom negativo.
A tendência da Venevisión de favorecer o governo persistiu na cobertura sobre o fim da concessão à RCTV, anunciada em dezembro. "Eles se cuidaram muitíssimo para não entrar em conflito com a decisão governamental", disse à Folha Marcelino Bisbal, diretor da pós-graduação em comunicação social da Universidade Católica Andrés Bello.
"Os golpistas de verdade estão impunes, porque simplesmente se colocaram ao lado do governo. Como disse o ministro das Comunicações, Willian Lara, "o canal 4 já baixou do golpismo, portanto não vamos tomar medidas contrárias'", afirma Petkoff.
Analistas prevêem que o canal de Cisneros herdará a maior parte da fatia publicitária da RCTV, estimada para este ano em US$ 163 milhões, segundo a revista especializada "Producto". "No campo publicitário, o fim da RCTV beneficia o outro canal nacional. A publicidade requer maior audiência e sintonia possível, e quem oferece isso é a Venevisión", disse Bisbal.
Por e-mail, a Folha pediu entrevista com Cisneros por meio do presidente da Venevisión, Carlos Bardasano, que confirmou o recebimento da mensagem, mas não deu resposta.
De acordo com a lista da "Forbes", Cisneros é o 119 homem mais rico do mundo, terceiro da América Latina, com uma fortuna de US$ 6 bilhões.


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