São Paulo, sexta-feira, 02 de setembro de 2005

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JOSÉ SARNEY

Da felicidade

Deu-me desejo de escrever sobre esse tema quando participei, em São José de Ribamar, cidade referência de peregrinação religiosa no Maranhão, de um festival de literatura -uma réplica pobre do de Parati- que reúne intelectuais e leitores para discutir e divagar sobre os temas da cultura, principalmente da criação literária.
Quando fiz uma palestra sobre o aparecimento da linguagem, a escrita e o livro, na fase de perguntas, apareceu uma moça e pediu para ler um poema sobre São Luís. Versos simples, de uma beleza ingênua, mas cheio de profundo sentimento de amor à cidade cantada por todos como "dos mirantes e azulejos". Depois, apresentou-se, para emoção de todos: "Sou gari, há oito meses limpo a cidade. Não digo que não seja alvo de discriminação. Todo trabalho é digno. E tenho a maior felicidade. Sou feliz porque passo o dia limpando, com amor e carinho, a minha cidade de São Luís". Gorete era a poetisa anônima que dava um comovido exemplo de vida e foi o ponto alto do evento. Meditei profundamente sobre o tema da felicidade. Como a desperdiçamos no abandono de viver. Como ela brota e floresce escondida. Sempre ficamos tão presos e mergulhados nas cobranças que nos esquecemos da felicidade.
Um dos mais belos discursos que já ouvi foi do senador Agenor Maria, eleito pelo Rio Grande do Norte em 1974. Ele era um homem simples, tinha sido lavrador e marinheiro. Falou de sua vida e terminou dizendo que não eram as luzes do Senado que o seduziam: "O tempo mais feliz da minha vida foi quando eu entregava água em Caicó, no sertão, de porta em porta. Não tinha preocupações nem angústias. Minha alegria eram o meu jumento, os meus fregueses e a água. Ali residia a minha felicidade". Nunca esqueci suas palavras e, na lembrança, vinculei-as às de Gorete. Um poema e um discurso, referências da arte de ser feliz.
Há dois dias, num excelente artigo, Augusto Marzagão escreveu: "Estou farto de CPIs, escândalos, denúncias, mentiras deslavadas, jogo de traições e tramas urdidas que enojam a gente". Talvez não seja hora de desviarmos os olhos da alma das coisas más e descobrir a semente do renascimento de coisas mais puras e mais dignas? A democracia se testa e melhora quando vemos suas vulnerabilidades e procuramos acabá-las.
Na política, as palavras mais fortes que falam da felicidade são de Jefferson, quando, na Declaração de Independência dos Estados Unidos, colocou na linha dos direitos humanos a busca da felicidade. Este texto é o mais alto nas idéias políticas do Ocidente: "Todos os homens nascem iguais; o Criador confere a todos certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essa "busca da felicidade" tornou-se um símbolo, como se fosse ela a razão de todos os direitos, a utopia individual de ser feliz.
Mas o que é ser feliz? Um provérbio alemão diz que a felicidade é como o arco-íris, "não se vê nunca em casa própria, e sim na casa do vizinho".
Agenor Maria e Gorete são temas de reflexão nestes dias em que nos sentimos tão infelizes e não conseguimos olhar o céu.
Estudei muito latim. Bogéa, um colega meu, já nas agruras da vida, vendedor no Rio, me disse: "O latim que estudamos não nos serviu de nada". Ele embalava batatas. Portanto, nesta oportunidade rara, dou-me o gosto de um latinzinho: "Felix est non aliis qui videtur, sed sibi". Mais ou menos o que se diz no Nordeste: "Feliz é quem feliz se julga". Ponto.


José Sarney escreve às sextas-feiras nesta coluna.
@ - jose-sarney@uol.com.br


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