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São Paulo, domingo, 14 de setembro de 2003

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ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES

Aos jovens estudantes brasileiros

A Unesco possui uma escala para classificar os países segundo o seu nível de educação. A escala utiliza testes que visam identificar a capacidade dos alunos no domínio dos rudimentos básicos da leitura e da aritmética.
Pois bem. Em testes realizados em 2002, a Unesco verificou que 50% dos alunos brasileiros estão no nível mais baixo da escala, revelando séria incapacidade para ler textos simples e para fazer contas elementares. Entre os 41 países estudados, o Brasil ficou em 37 lugar na prova de leitura e em último lugar na prova de aritmética.
Isso é lamentável. Dentre os estudantes que conseguem ler um texto até o fim, a capacidade de retenção das idéias e a de interpretação do que leram é precária. A maioria tropeça no meio da leitura ou apenas reconhece a grafia das palavras, mas não o seu significado, e muito menos a sua articulação com outras palavras.
Nas provas de aritmética, os estudantes têm dificuldades enormes para entender o próprio enunciado dos problemas -uma mistura de deficiências de linguagem e de raciocínio. E a maioria não consegue resolver questões simples de dividir e de multiplicar que são exigidas pelo dia-a-dia de cada um.
Estamos muito longe dos países que ocupam os primeiros lugares nessa escala -Finlândia, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Irlanda. Mas estamos longe também de alguns países do nosso nível que conquistaram lugares de destaque, como são os casos de Hong Kong e da Coréia do Sul, que ocupam o 6 e o 7 lugares respectivamente. O Brasil, infelizmente, está no final da escala, acompanhado por países como a Macedônia, a Indonésia, a Albânia e o Peru.
Esse quadro tem fortes implicações para o futuro de qualquer país. O Brasil deu uma grande arrancada nos últimos 20 anos, é verdade. Vencemos a batalha da quantidade e conseguimos matricular quase todas as crianças na escola.
Mas isso é muito pouco nos dias atuais. Na vida moderna, o que conta é a qualidade. Isso vale para o trabalho, para a cidadania, para o convívio familiar etc. Vejam o caso do trabalho. Segundo artigo recentemente publicado pela Folha, verificou-se que 180 mil jovens disputaram 872 vagas em empresas do Brasil -uma desproporção impressionante. Mais impressionante foi saber que a esmagadora maioria desses jovens não tinha nenhuma experiência anterior de trabalho nem o mínimo de conhecimentos exigidos pelas empresas em linguagem, em informática e em inglês (Gilberto Dimenstein, "180 mil jovens não conseguiram ocupar 872 empregos", Folha de S.Paulo, 20/7/03).
Ou seja, em um país onde falta tanto emprego, verifica-se que há uma grave escassez de pessoas qualificadas para preencher as poucas vagas existentes. É claro que educação não gera emprego, mas, pelo exemplo dado, fica claro que sem educação ninguém se emprega no mundo moderno.
A batalha da qualidade está apenas começando no Brasil e precisa ser muito acelerada. Além de matricularmos todas as crianças na escola, é preciso que elas concluam os estudos com muita dedicação, tendo aprendido o que a vida exige, pois são elas que representam o futuro de nosso país de hoje num mundo chamado globalizado, ou seja, de muito maior competitividade.


Antônio Ermírio de Moraes escreve aos domingos nesta coluna.


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