São Paulo, domingo, 18 de janeiro de 2004

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ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES

Professor esquecido é juventude fracassada

Nada pode ser mais catastrófico para uma sociedade do que deixar de educar as crianças e os jovens. No Brasil, estamos festejando o fato de o país ter conseguido matricular todas as crianças na rede escolar. Mas isso não é suficiente. O importante é entrar na escola, ficar nela e dela sair com uma boa educação.
É triste verificar que, das 12.506 vagas que sobraram no vestibular das universidades públicas em 2002, 6.641 foram na área da educação. Nas universidades particulares deu-se o mesmo.
A profissão de professor está em baixa. Os jovens brasileiros não querem mais saber do magistério. E não é para menos. Sua remuneração é ridícula. A média salarial de um professor de nível médio é de R$ 866 por mês -com uma enorme variação de região para região do país, sabendo-se que, no Norte e no Nordeste, não chega a R$ 400. No ensino fundamental, há milhares de professores que ganham apenas o salário mínimo -R$ 240- ou até menos.
Ademais, as condições de trabalho, na maioria das escolas, são simplesmente massacrantes. Além de longas jornadas (muitos mestres chegam a dar 60 aulas por semana!), o apoio didático é deficiente e as bibliotecas são mal equipadas -tudo isso regado por uma incontrolável indisciplina da maioria dos adolescentes, que levam para a sala de aula a generalizada confusão entre liberdade e liberalidade.
O problema da falta de docentes é grave. Só na rede pública, há um déficit de 250 mil professores para lecionar na 5, 6, 7 e 8 séries do ensino fundamental. No ensino médio, a escassez de professores de matemática, de química e de física é assustadora. As escolas não conseguem recrutá-los porque os poucos formados procuram outras atividades e não querem saber de ensinar. Eles foram vencidos pela desilusão de educar neste pobre país.
Tudo isso seria puro catastrofismo se não houvesse solução. Mas há. No campo da educação, as distorções falam mais alto do que a falta de recursos. É um absurdo que, até hoje, a maior parte dos recursos vá para as universidades públicas, onde uma grande maioria de alunos bem aquinhoados e que frequentaram colégios e cursinhos particulares caríssimos goza, no ensino superior, do privilégio de ali estudar sem nada pagar.
Na maioria dos países mais ricos do mundo, as universidades públicas são pagas, e bem pagas. Quem tem mais, paga mais. Quem tem menos, paga menos. Quem nada tem, recebe bolsa de estudos.
Uma política desse tipo, no Brasil, poderia canalizar para o ensino fundamental e médio uma grande quantidade de recursos para, com isso, remunerar melhor os professores, oferecer um bom apoio didático e equipar bem as bibliotecas. Sob tais condições, os jovens voltariam a se interessar pela educação e a preencher as vagas ociosas.
Isso precisa ser feito com urgência se quisermos inverter o quadro atual e garantir o professorado de amanhã. Do contrário, condenaremos a juventude ao fracasso e a nação ao subdesenvolvimento.


Antônio Ermírio de Moraes escreve aos domingos nesta coluna.


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