São Paulo, segunda, 11 de agosto de 1997.



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100 ANOS NA JUGULAR
Príncipe romeno que inspirou Bram Stoker empalava mulheres e crianças e virou herói nacional
Drácula de verdade passava sangue no pão

especial para a Folha

Ele mandava empalar mulheres e crianças de 1 e 2 anos de idade, obrigava suas vítimas a atos de canibalismo, esfolava os prisioneiros e os enterrava vivos, fazia suas refeições e até brindava entre os cadáveres. Segundo alguns, embebia o pão no sangue dos moribundos, quando não o bebia numa taça.
Esse amor de pessoa atendia pelo nome de Vlad, chamado Tepes (o Empalador) ou Drácula (filho de dragão ou do diabo). Era príncipe e foi o modelo para que Bram Stoker criasse Drácula -mais tarde, inspirou o ditador Nicolau Ceaucescu, que aprontou 1.001 malvadezas e fez da Romênia seu quintal.
Vlad Tepes, ou Drácula, era filho de Vlad 2, príncipe da Valáquia, e nasceu em 1431, na cidade de Sighisoara, norte da Romênia. A casa onde nasceu ainda existe, foi asilo de velhos e abriga um restaurante. Curiosamente, Vlad, o Empalador, teve um irmão por parte de pai, Vlad, o Monge, que se dedicou à religião.
A Valáquia ocupa a região sul da Romênia, e a Transilvânia, a centro-norte. Por séculos, foram interligadas, ora unidas, ora independentes, sob influência húngara ou turca. É nesse jogo de forças que pai e filho exercem o poder.
Vingança
Quando Vlad Tepes, ou Drácula, tinha 11 anos, Vlad 2 foi aprisionado pelo sultão turco Murad 2, que duvidava de sua lealdade. Para provar a lealdade, que na verdade não existia, o príncipe deixou os filhos Vlad e Radu como reféns e salvou a pele. As crianças ficaram em poder dos turcos por seis anos.
Drácula faria da vingança uma razão de viver. "Ele também desenvolveu uma reputação como trapaceiro, manhoso, insubordinado e brutal, inspirando medo aos próprios guardas", afirmam Raymond T. McNally e Radu Florescu no livro "Em Busca de Drácula e Outros Vampiros".
Fugiu dos turcos em 1448, um ano depois do assassinato do pai. Ocupou o trono da Valáquia por dois meses, mas a situação era instável. Os príncipes Danesti chegaram ao poder, e Drácula ficou sem rumo. Reapareceu na Transilvânia e pediu clemência a Hunyadi.
Hunyadi defendia a cristandade contra os infiéis turcos e precisava de um candidato confiável ao trono da Valáquia -os príncipes Danesti adotavam posições pró-turcas. Drácula ocupou pela segunda vez o trono entre 1456 e 1462.
Então, havia o temor de que os turcos -em 1453, tinham conquistado Constantinopla- quisessem tomar a Transilvânia. Com o poder, revela-se a crueldade de Drácula, para a qual confluem fatos reais ou nem tanto. Crueldade que deve ser entendida, não justificada, na luta contra os turcos.
Drácula foi educado na fé cristã e, para ele, qualquer meio justificava o fim de defender as fronteiras nacionais e cristãs. É considerado um herói nacional na Romênia e, em 1976, por ocasião do quinto centenário da sua morte, foi homenageado em todo o país -houve até um selo comemorativo ilustrado com seu retrato.
As histórias de sua crueldade são infinitas e se confundem com a cultura popular. Certa vez, à frente de 20 mil homens, devastou a Transilvânia e empalou 10 mil ex-companheiros, sob a alegação de que concorriam deslealmente com mercadores valáquios. (FM)



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