São Paulo, segunda-feira, 25 de setembro de 2006

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Presidente acena à oposição para evitar crise de governabilidade

Lula prepara agenda de reformas políticas e econômicas com o objetivo de melhorar sua relação com os tucanos, a mídia e os mercados, caso seja reeleito

KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma agenda política e econômica para enfrentar uma eventual crise de governabilidade caso seja reeleito. Ele avalia que a tentativa de compra de dossiê contra o PSDB dinamitou pontes com a oposição que estava reconstruindo, além de ter aumentado dúvidas do mercado e da imprensa sobre sua gestão em um eventual segundo mandato.
Sexta, Lula ouviu de um ministro: "Os próximos dez dias serão de guerra. Depois, será preciso acalmar o ambiente". Lula concordou. Ainda que nos próximos dias adote retórica inflamada, confirmada a reeleição, tomará "medidas de distensão", nas palavras de um auxiliar. Serão acenos para angariar simpatia de setores de oposição, empresariado e mídia.
Exemplo: convidará os tucanos José Serra e Aécio Neves, prováveis vencedores em São Paulo e Minas, para encontro. Ambos são potenciais candidatos à Presidência em 2010.
A Folha apurou que já está tomada pelo presidente a decisão de promover um ajuste fiscal em 2007. Ele apenas preservará a política de correção do salário mínimo acima da inflação. Para um ministro, não vai dar para atravessar o ano que vem com a proposta de Orçamento enviada em agosto.
Com austeridade fiscal, Lula buscará a simpatia do empresariado e dos chamados "formadores de opinião" que questionam a sustentabilidade do crescimento econômico com o aumento de gastos públicos.
No Planalto, descarta-se o cenário de "chavização", temido por setores da oposição. Estariam fora, assim, ações à la Hugo Chávez, presidente da Venezuela, como hostilidade às instituições.

Governabilidade
Alguns ministros pensam que a governabilidade do petista será complicada. Mas dizem também que o país ficará "ingovernável" se Alckmin se eleger à custa do caso do dossiê. Nesse contexto, o próprio presidente registrou como positiva a reação de Serra ao escândalo. O tucano tem criticado levemente Lula, evitando associá-lo à tentativa de compra do dossiê. Isso porque, com o aval do presidente, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, tem mantido Serra informado sobre as investigações.
O ministro procurou o tucano já na sexta-feira, 15 de setembro, dia em que Lula foi informado da operação da Polícia Federal que prendera petistas.
Lula crê que Serra deseja liderar a oposição, mas sem hostilizá-lo em demasia. Como o petista não será mais seu adversário em 2010, o correligionário Aécio seria seu principal oponente. Se Serra for para a guerra, poderá ver o petista dar apoio ao mineiro em 2010.
Essa hipótese não é absurda, apurou a Folha. No entorno de Lula, há quem avalie que o PT terá dificuldade para construir candidatura para daqui a quatro anos. Mais: Serra e Aécio terão interesse em ajuda federal. Já Lula precisará dos dois para aprovar a reforma política e voltar aos temas previdenciário, tributário e trabalhista.
O presidente tem dito que necessita mais do que nunca de um governo de coalizão com o PMDB, mas acha que o custo cresceu com o caso do dossiê. Uma forma de tentar diminuir esse custo é evitar dar corda a uma tentativa de a oposição levar adiante seu impeachment. O cenário "Nixon", referência ao presidente dos EUA que renunciou em 1974 após conquistar um segundo mandato, demandaria a entrega de posições estratégicas do governo.
Há preocupação ainda com futuras decisões da Justiça. Lula avalia que precisará tratar com cautela o pedido de impugnação de sua candidatura feito pela oposição. Para petistas, o presidente do TSE, Marco Aurélio Mello, tem dado sinais de que o caso do dossiê poderá permitir questionamento da lisura de sua eleição.

Leve autocrítica
Apesar de intolerante a críticas, Lula tem feito uma espécie de "mea culpa" em conversas reservadas. Avalia que o seu estilo informal contribuiu para gerar o clima que levou ao escândalo do dossiê. Traduzindo: amigos e auxiliares próximos teriam confundido demonstrações de afeto com frouxidão em relação a desvios éticos. Segundo auxiliares, num eventual segundo mandato, Lula tiraria alguns deles do Planalto.


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