São Paulo, sexta, 6 de novembro de 1998

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CINEMA - ESTRÉIA
"Amor & Cia.' traduz em cinema ironia de Eça

JOSÉ GERALDO COUTO
da Equipe de Articulistas

O tema do adultério perpassa toda a grande literatura do século 19, com suas sofridas Bovarys e Kareninas, sua indecifrável Capitu.
O português Eça de Queiroz (1845-1900) frequentou o assunto diversas vezes, mas foi na novela "Alves & Cia." que esse fino crítico retratou de modo mais compacto as relações entre o amor e os negócios no casamento burguês.
Para conseguir esse efeito de condensação do sentido, criou um triângulo amoroso clássico, mas rico em desdobramentos dramáticos e morais: o comerciante Godofredo Alves, sua mulher Ludovina e seu sócio e amigo Machado.
O primeiro grande mérito do filme "Amor & Cia." é o de transplantar com eficácia o argumento da novela para o ambiente social de Minas Gerais do final do século 19, recém-saído da escravidão.
Transplantar talvez nem seja o termo, pois no filme a história parece brotar naturalmente do solo mineiro. Contribuiu muito para isso, é claro, a escolha da cidade histórica onde foram feitas as filmagens (São João Del Rey), assim como o excepcional trabalho de direção de arte e cenografia (de Clóvis Bueno e Vera Hamburger).
Mas se o filme se baseasse só nisso correria o risco de ser uma daquelas engomadas minisséries de época que a TV nos impinge de quando em quando.
Não é o que acontece, sobretudo porque o diretor Helvécio Ratton, além de encontrar a embocadura dramatúrgica mais fiel ao espírito de Eça, soube traduzir em cinema aquilo que, no livro, era puro (e engenhoso) recurso literário.
Tomemos o exemplo da cena crucial em que Alves (Marco Nanini, ótimo) flagra Ludovina (Patrícia Pillar) trocando carícias com Machado (Alexandre Borges).
No livro, Alves entra em casa pé ante pé para dar a Ludovina um presente-surpresa. "Seus sapatos de verão, de sola fina, não faziam o menor ruído", escreve Eça.
Quando se prepara para levantar a cortina do "boudoir" onde julga que está a mulher, Alves ouve "um rumor ligeiro", vindo da sala, volta-se para lá... "E o que viu -santo Deus!- deixou-o petrificado."
No filme, uma deslizante "steadycam" acompanha Alves em sua incursão casa adentro, numa correspondência visual do "pé ante pé" descrito no livro.
Assumindo o ponto de vista de Alves, a câmera "vê" o encontro amoroso distorcido e fragmentado por uma porta de vidro. Tudo se mostra, mas nada é muito claro -e essa ausência de certeza amplifica o tormento do ciúme.
Por sob a capa de uma narrativa clássica e linear, "Amor & Cia." esconde uma complexa carpintaria formal feita de sutilezas. É uma comédia de costumes a que se assiste com prazer e, ao mesmo tempo, um trabalho exemplar de adaptação cinematográfica.
No confuso Festival de Brasília deste ano, "Amor & Cia." ganhou os prêmios de melhor filme, direção de arte e atriz (Patrícia Pillar).

Filme: Amor & Cia. Direção: Helvécio Ratton Produção: Brasil, 1998 Com: Marco Nanini, Patrícia Pillar Quando: a partir de hoje, nos cines SP Market 10, Espaço Unibanco 2 e circuito


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