São Paulo, domingo, 28 de janeiro de 2001

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Volume reúne as cartas trocadas por Hannah Arendt e Martin Heidegger

A intimidade da filosofia

Nádia Battella Gotlib
especial para a Folha

Nem sempre as cartas oferecem ao leitor apenas atos banais que se sucedem na mesmice do cotidiano. Por vezes extrapolam tais limites redutores ao revelarem, entranhados na matéria mesma desse cotidiano, focos de interesse referentes a posturas, comportamentos, mentalidades, épocas.
É o que nos oferece a correspondência trocada entre Martin Heidegger e Hannah Arendt, de 1925 a 1975, que agora ganha publicação em português, com esclarecedoras notas do organizador.
Paralelamente à marcação temporal mais imediata, que por si só já conta uma história -a história de duas pessoas que mantiveram uma forte ligação afetiva e intelectual ao longo de 50 anos-, as cartas deixam transparecer um intrincado pano de fundo e, com a vivacidade da flagrância, fazem um trabalho útil: mapeiam percursos, esboçando um "diário de pensamento", para lembrar título da própria Hannah Arendt, deixando visíveis as "marcas do caminho", conforme título do próprio Heidegger.
De fato, os 168 textos aí reunidos podem ser lidos sob vários prismas e daí provém também o seu interesse. Como uma espécie de romance epistolar, desenrolam-se os encontros e desencontros, intrigas e cenas de ciúme mal disfarçadas. E, como uma espécie de crônica de época, desponta, de modo igualmente marcante, a situação da vida universitária alemã, as discussões intelectuais, os desentendimentos, a burocracia cansativa, ambiente esse ainda colocado em cotejo com o da vida universitária americana após a mudança de Hannah Arendt para os Estados Unidos.
Paralelamente surge a gênese das grandes obras, acompanhadas de questões pertinentes pelo próprio autor ou pelo destinatário/leitor, sob a forma de comentários, notas, críticas que levam ainda outro mérito: o de se apresentarem em linguagem acessível a um público não-especializado em filosofia.
Infelizmente não foi possível ao organizador refazer o diálogo mediante a publicação de todas as cartas enviadas, o que se explica, em parte, por motivos óbvios: a maioria teve de ser destruída para evitar complicações no campo matrimonial oficial.
Assim sendo, há lacunas, que, contudo, são parcialmente preenchidas com as menções, indiretas, da matéria que vai se desfiando ao longo das cartas de que dispomos. Ou seja: adivinhamos por meio das cartas que lemos o que disseram aquelas que não pudemos ler. O exercício não deixa de ser instigante, sobretudo para leitores mais curiosos.
Nota-se também que a grande maioria de cartas aí publicadas foi escrita por Heidegger, num total de 122, contra apenas 32 escritas por Hannah (além de 11 de ou para terceiros), o que poderia sugerir uma outra indagação: se teria ele destruído um maior número de cartas do que ela... Tal diferença quantitativa diminui na medida em que o tempo passa e quase se equilibra na fase final da vida dos dois, quando Heidegger -sempre casado com Elfride- e Hannah -casada oficialmente desde 1940 com seu segundo marido, Heinrich Blücher- se encontram nos meses de férias do casal Arendt/Blücher na Europa.
Para maior conforto do leitor, as cartas distribuem-se nesta edição em núcleos cronológicos, com títulos específicos: "O Olhar", "O Reencontro do Olhar", "O Outono", "Epílogo". O organizador realça, dessa forma, cada fase de vida dos remetentes, usando como fio uma imagem -a do olhar que alinhava a leitura das cartas, tanto no sentido afetivo dos apaixonados quanto no sentido filosófico das muitas questões que aí são por eles formuladas e discutidas, dentre as quais o "pensamento" figura como matéria principal.

Como uma espécie de romance epistolar, desenrolam-se os encontros e desencontros, intrigas e cenas de ciúme mal disfarçadas; e, como uma crônica de época, desponta a situação da vida universitária alemã, as discussões intelectuais, os desentendimentos


Ainda que fiéis a um mesmo destinatário que é também o interlocutor, há contudo uma diferença de tom entre as cartas escritas tanto por ele quanto por ela nessas diversas fases, o que também ajuda a conquistar a atenção do leitor.
No primeiro bloco, por exemplo, que inclui as cartas dos anos 20 e 30 (de 1925 a 1932/33), o professor Heidegger, lecionando então na Universidade de Marburg desde o ano anterior, se dirige ansioso a sua aluna Hannah: "Preciso encontrar-me ainda hoje com a senhorita para falar ao seu coração", afirma logo na primeira carta publicada, de 1925. Entre passeios e aflições, as cartas se caracterizam pelo arroubo sentimental, que perdura após a separação: o professor sai em férias para Todtnauberg com mulher e filho; no ano seguinte, a aluna passa a estudar noutras universidades (mais tarde confessa que por causa dele) e, em 1929, se casa, sem amor, com Günter Stern, de quem se divorciará na década seguinte. Mas a correspondência com Heidegger continua. Trocam cartas, flores, versos, fotos.
Se nesse período Heidegger escreve 22 cartas, em tom de paixão exaltada, há apenas três textos de Hannah. Num deles, "Sombras", documento de auto-análise datado de abril de 1925, escrito em Königsberg, discorre com sutileza a respeito de estados interiores que, curiosamente, Heidegger considera como não sendo propriamente dela.
Mas uma única carta difere, em tom, de todas as do volume. É a última carta do primeiro bloco, escrita por Heidegger para Hannah em 1932/1933, em tom incisivamente formal, em que se defende, com veemência, das acusações de anti-semitismo que lhe foram dirigidas. Talvez seja essa a carta mais substanciosa do ponto de vista político.
O segundo bloco compreende as cartas escritas na década de 50. Depois de um intervalo de quase 20 anos, se mantém a mesma proporção: para 40 cartas de Heidegger, há apenas 4 de Hannah, que, desde 1949, se encontra em viagem pela Europa para inventariar bens culturais judeus roubados durante a guerra. E faz algumas visitas a Heidegger, que insere a mulher, Elfride, no circuito: "Nosso amor precisava do amor dela", afirma ele a Hannah em abril de 1950. Mas nem sempre os encontros são possíveis.
Ciências e pensamento
Ganha densidade a troca de experiências profissionais, enriquecida pela remessa de livros, de ambas as partes: ele lhe manda livro sobre Kant, o texto "A Coisa" e recebe dela "As Origens do Totalitarismo" e "A Condição Humana", por exemplo. Mas há um tom amargo nas cartas de Heidegger, como na de dezembro de 1951, em que se mostra desiludido com a universidade, onde "todos se metem de tal modo nas ciências que perdem a intimidade com o ar livre do pensamento".
No terceiro e penúltimo bloco, as cartas, escritas de 1960 a 1975, são mais numerosas (há 28 cartas escritas por Hannah e 39 por Heidegger) e nelas paira mais tranquilidade, sob a forma de notas e comentários breves referentes a textos, deles e de outros, além de discussão sobre problemas com editores e de informações sobre o meio acadêmico experimentado de modo intenso, sobretudo por Hannah Arendt, que atua como convidada em várias universidades dos Estados Unidos e da Europa. É possível, pois, acompanhar Hannah Arendt na sua incursão pelos anos 60 nos Estados Unidos por meio de comentários variados, tanto sobre a guerra do Vietnã ("O melhor que pode acontecer com este país, ou seja, com a República, é perder a guerra", afirma, em março de 1968) como sobre manifestações feministas, a que Hannah reage com certa impaciência.
Mas o final da relação estava próximo. Em agosto de 1975, mais uma vez de férias na Europa, Hannah faz sua última visita a Heidegger. E o quarto e último bloco dessa correspondência exibe apenas dois documentos escritos por Heidegger, em que constata a morte de Hannah, que aconteceu em dezembro de 1975, em Nova York.
As cartas, assim dispostas, ligam-se por uma estranha força de mútua sustentação que resiste às separações. Lembram por isso o discurso que Hannah proferiu em 1969 por ocasião do 80 aniversário de Heidegger. Nele acentua a importância do "pensamento" heideggeriano para a determinação da "fisionomia espiritual do século", entre outros motivos, por considerar o "pensar" como "o aproximar-se da distância". Tal como o "escrever cartas", nessas cartas que trocaram entre si.

Nádia Batella Gotlib é professora de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autora de "Clarice" (Ática) e co-autora, com Walnice Nogueira Galvão, de "Prezado Senhor, Prezada Senhora - Estudos sobre Cartas" (Cia. das Letras).



Hannah Arendt - Martin Heidegger: Correspondência 1925/1975
330 págs., R$ 35,00
Ursula Ludz (org.). Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Ed. Relume-Dumará (travessa Juraci, 37, RJ, CEP 21020-220, tel. 0/ xx/21/564-6869).





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