São Paulo, domingo, 10 de junho de 2007

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George e Vladimir

VLADIMIR [Putin] e George [W. Bush] -parece que é assim que eles se tratam agora- não resolveram as diferenças entre seus países na cúpula do G8, mas conseguiram moderar o tom da retórica que vinha opondo Rússia e EUA.
Dias atrás, o mandatário russo havia ameaçado assestar suas armas nucleares contra a Europa. O líder americano, por seu turno, havia dito que a democracia russa descarrilara -resposta de bom tamanho para quem havia acusado Washington de produzir "horror, tortura, sem-tetos e Guantánamo". É um avanço quando se considera que, semanas antes, Putin comparara os EUA à Alemanha nazista.
Apesar de as declarações reviverem os piores momentos da Guerra Fria, Bush e Putin seguem tratando-se pelo prenome e trocando visitas e fórmulas de cortesia. Ambos sabem que parte da oratória do presidente russo tem como alvo o público doméstico. Em dezembro haverá eleições para a Duma (Parlamento russo) e, em março, ocorrerá o pleito presidencial. Putin está impedido de concorrer a um terceiro mandato, mas planeja fazer seu sucessor. Atacar o Ocidente é algo que normalmente ajuda.
Daí não segue que tudo seja pirotecnia eleitoral. Além da questão dos mísseis, há importantes diferenças entre os países. O problema de Kosovo (região sérvia que a ONU poderá emancipar) é outro que fala alto ao pan-eslavismo. O governo russo também se considera mal recompensado pelo apoio dado os EUA após o 11 de Setembro, oferecendo bases e inteligência para derrubar o Taliban no Afeganistão.
Ancorada na recuperação econômica movida a petróleo, a Rússia quer voltar a atuar como a potência militar que ainda é. Não se sujeita ao papel de coadjuvante do Ocidente. Descontados exageros retóricos, não deixa de ser boa notícia para um mundo que se queixava, com razão, do unilateralismo americano.


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