São Paulo, sábado, 01 de dezembro de 2001

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LIVROS

A esperança e a vaidade em torno de Celso Furtado

FREDERICO VASCONCELOS
DA REPORTAGEM LOCAL

"A grande esperança em Celso Furtado", que reúne 14 ensaios em homenagem aos 80 anos do autor de "Formação Econômica do Brasil", é um livro oportuno.
A coletânea organizada por Luiz Carlos Bresser Pereira e José Marcio Rego retoma esperanças perdidas nas últimas décadas e revolve algumas vaidades feridas.
A obra surge no momento de revisão crítica da ortodoxia liberal abraçada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, um modelo que inibe a intervenção do Estado como regulador das distorções sociais do mercado.
"Foi preciso o desgaste do pensamento único de matriz neoliberal, nos últimos anos, para que voltassem à discussão os argumentos e a visão histórica de Furtado", diz Vera Alves Cepêda, cientista social, autora de dissertação sobre o pensamento político do economista paraibano.
É instigante que essa homenagem tenha sido idealizada por Bresser, executor da reforma administrativa que ajudou a reduzir o Estado no governo tucano, cuja política econômica o homenageado considera equivocada.
"Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser", diz Furtado.
No livro, Bresser entende que essa crítica "não atinge apenas os governos, mas mais amplamente as elites brasileiras".
Em seu ensaio, Bresser destaca a independência de pensamento, o método e a paixão na obra de Furtado, o cientista social brasileiro mais influente de todo o século, o primeiro a afirmar que desenvolvimento e subdesenvolvimento fazem parte do mesmo processo de expansão da economia capitalista internacional.
Ignacy Sachs resume a obra teórica que Furtado defenderia como técnico, estadista e cidadão: "A construção de um projeto nacional que permita transformar por dentro o país por meio de estratégias nacionais de desenvolvimento, superando as desigualdades sociais e regionais".
Bresser diz que não se preocupou em desfazer preconceitos contra Furtado, "autor controverso, oscilando de uma posição intelectual quase hegemônica a uma recusa formal de suas teses", na definição de Alves Cepêda. "Nem sempre estou de acordo com ele (...) mas jamais deixo de admirá-lo", diz Bresser.
Em 1997, ao tratar de obra que reuniu conversas com 13 pesos pesados da economia brasileira, o economista Guido Mantega já dizia que as vaidades pessoais e as diferenças ideológicas dificultam a análise objetiva e distanciada.
A vaidade dos economistas aflora com mais nitidez no ensaio de José Marcio Rego, quando trata da "angústia da influência" na obra de Furtado (cita a "origem dos conhecimentos históricos" de Furtado, segundo Tamás Szmreczányi, "tão parcialmente indicada pelas poucas fontes nacionais e portuguesas" em notas de rodapé no livro clássico "Formação Econômica do Brasil").
Rego também reproduz antigo choque de egos no comentário do sociólogo Francisco de Oliveira sobre a disputa entre Furtado e Ignácio Rangel, nos anos cinquenta, pela hegemonia do pensamento da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina): "Os nossos dois grandes pais da pátria eram dois poços de vaidade" (...). "Eles achavam que tinham inventado a roda".
Divergências ideológicas entre economistas são comuns. A fogueira de vaidades não fica restrita aos livros ou à universidade (o "imortal" Celso Furtado fez oposição à eleição de Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras, e ninguém imagina que as tertúlias da academia possam influir no debate sobre um projeto nacional de desenvolvimento).
Um traço da personalidade do homenageado é resgatado pelo testemunho de Francisco de Oliveira, seu companheiro na Sudene, ao relatar como Furtado enfrentou o general Justino Alves Bastos, comandante do 4 Exército, em Recife, em 1964. "Eu sou um servidor federal, general. O Exército assuma a responsabilidade pelo que fez, destituindo um governo legitimamente eleito. Não me peça para coonestar nem cooperar com isto, pois repugna aos meus princípios republicanos", disse Furtado.
O pernambucano Clóvis Cavalcanti rememora os tempos da Sudene -autarquia criada por Furtado e extinta por FHC- e registra como o homenageado "não se equivocou ao prognosticar a natureza persistente, renitente, do subdesenvolvimento".
O contraste entre o país almejado por Furtado e o atual quadro de exclusão social e desigualdades agravadas sugere que "a grande esperança", que dá nome ao livro, seja apenas uma referência a título de homenagem.
Como afirma Leda Maria Paulani, professora da FEA-USP, "as transformações experimentadas pelo capitalismo no último quartel de século soterraram perversamente essa esperança".


A GRANDE ESPERANÇA EM CELSO FURTADO
Organizadores: Luiz Carlos Bresser Pereira e José Marcio Rego. Editora 34. 306 págs. Preço: R$ 29,00


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