São Paulo, quarta-feira, 18 de setembro de 2002

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ELIO GASPARI

O urânio de Saddam é de macumba

Qualquer pessoa pode dizer qualquer coisa a respeito de bombas atômicas. Terá crédito. Exemplo: o projeto nuclear ucraino-argentino, baseado no reprocessamento alternado, pode levar à bomba em dois anos. Pode, desde que se descubra quando ucranianos e argentinos se entenderam (nunca) e o que vem a ser reprocessamento alternado (nada). É por isso que há um forte cheiro de macumba contra o governo brasileiro na intriga internacional que acompanha a bomba iraquiana. Veja-se a seguinte notícia publicada no domingo pelo "Times", de Londres:
"De acordo com um cientista nuclear dissidente, o Iraque pode produzir armas nucleares em questão de meses, usando equipamento alemão pirateado e urânio contrabandeado do Brasil".
O cientista iraquiano chama-se Khidhir Hamza. Tem 63 anos, dirigiu o programa clandestino de construção da bomba de Saddam Hussein e fugiu do país em 1994.
Segundo Hamza, em poucos meses Saddam Hussein pode fazer até três bombas . Ele já teria o urânio e, valendo-se de uma tecnologia de centrifugação, "a menos que seja parado logo, montará uma completa indústria de artefato nucleares".
Sabe-se lá o que Saddam tem, mas uma coisa é certa: o doutor Hamza meteu o urânio brasileiro na conversa sabendo que o governo de Pindorama vendeu ao Iraque, no máximo, algumas dezenas de toneladas de pasta ("yellow cake") durante o governo do general Figueiredo (1979-1985). Foi uma operação conduzida pelo falecido Serviço Nacional de Informações.
(A comandita política havida entre alguns generais e empresários da ditadura militar com o governo de Saddam Hussein é um clássico da leviandade e da megalomania a serviço da picaretagem. Talvez tenha sido aquilo que Lula chama de "visão estratégica", mas isso é outra conversa.)
Hamza forçou a mão quando falou em urânio contrabandeado do Brasil. Primeiro, porque ele vinha também da Nigéria, da Itália e de Portugal. Segundo, porque esse pedaço da história do programa que dirigia teve importância tão secundária que nem sequer foi mencionado em seu livro, publicado em 2000. ("Saddam's Bombmaker", ou O fabricante da bomba de Saddam).
A história da tecnologia de centrifugação é empulhação. Ela é velha como a Sé de Braga e o Iraque a usa desde 1981, quando os israelenses destruíram o reator francês de Ozirac (também conhecido como O'Chirac, em homenagem ao primeiro-ministro que o vendeu.) Essa informação que Hamza parece estar oferecendo como nova, além de irrelevante, está na página 130 de seu livro.
O cientista iraquiano trabalhou durante quase 20 anos no projeto da bomba de Saddam e nunca a teve a um par de anos de vista. Saiu do país em 1994, quando o Ocidente já não tinha a política de "venda, não pergunte" em relação ao Iraque. Com menos informações e com Saddam submetido a um bloqueio, ele acha que a bomba é questão de meses. Pode achar o que bem entender, o que soa esquisito é que fale em contrabando de urânio brasileiro, quando yellow cake é outra coisa. Algo como uma pessoa que tem uma chapa de aço e diz que comprou um carro. Mais esquisito é que fale em contrabando brasileiro sem esclarecer que ele ocorreu durante a ditadura militar, e não hoje.
De qualquer maneira, convém polir a qualificação profissional de Hamza. Tendo sido chefe do programa nuclear iraquiano, quando publicou seu livro nos Estados Unidos, qualificou-se na orelha como consultor do Departamento de Energia do governo americano. O "Times" apresentou-o sem essa qualificação.
Não é a primeira vez que Hamza aparece no "Times". A primeira foi em abril de 1995. Informava que ele desaparecera na Grécia, depois de ter transmitido, por fax, mais de 50 documentos secretos ao jornal. Citava sua mulher, temendo que os iraquianos o matassem, e informava que ela também sumira.
Hamza não estava na Grécia, nunca mandara fax ao "Times" e sua mulher continuava em Bagdá, de onde ele já se escafedera. Quando ele viu a notícia, esfriou: "A pergunta era: por quê? Quem plantou essa história? Para quê?".
Um exilado iraquiano encontrou-o em Budapeste e disse-lhe: "Dr. Hamza, os americanos querem conversar com o senhor".
O cientista fechou o círculo: "Agora eu sabia quem tinha plantado aquela história". (Os americanos, que haviam perdido seu rastro, queriam restabelecer o contato.)
Em tempo: o "Times" nunca informou aos seus leitores que os faxes recebidos do suposto Hamza eram falsos, apesar de ter recebido essa informação da Agência Internacional de Energia Atômica.


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