São Paulo, quarta-feira, 18 de julho de 2001

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Livros didáticos com muitos dados são ineficientes, diz pesquisador

DO ENVIADO A SALVADOR

Os Estados Unidos, país que tem a ciência mais pujante do mundo, não têm nenhum livro de ciência de boa qualidade para seus alunos de primeiro e segundo grau. Essa é a opinião do pesquisador George Nelson, diretor de um ambicioso projeto de reforma curricular do ensino de ciência patrocinado pela AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência, em inglês).
Nelson fez essa afirmação em palestra no último domingo na reunião anual da SBPC, a equivalente brasileira da AAAS.
"O que nós descobrimos nos EUA é alarmante. Há alguns poucos livros bons de matemática e zero livro de ciência aceitável", declarou Nelson.

Superficiais
O norte-americano é responsável pelo Projeto 2061, que desde 1985 tem estudado currículos e livros didáticos e feito propostas de mudança. O objetivo básico é delinear modelos curriculares para o ensino de ciência no futuro.
A principal crítica de Nelson aos livros atuais parece contraditória: os livros são muito superficiais porque são carregados demais de informação. Para ele, o ideal seria tirar esse peso extra que os alunos não conseguem dominar, de forma a focalizar apenas os conceitos mais importantes.
"Esse é um dos capítulos mais polêmicos: tirar algumas idéias que os educadores acham importantes. É mais fácil um educador acrescentar algo do que tirá-lo de um currículo", afirma Nelson.
Para ele, o educador deve agir como um cientista, enfocando a tarefa de ensinar como um pesquisador que vai iniciar um estudo: descobrindo primeiro qual o estado da arte no assunto, para em seguida começar sua própria pesquisa. E verificar o resultado: se de fato os alunos aprenderam.
"Quando levamos algo para a sala de aula, já assumimos que irá funcionar", diz ele. Mas nem sempre isso é verdade. Novos estudos científicos sobre o processo de aprendizado têm iluminado aspectos de como o aluno de fato absorve o conhecimento.
Uma constatação óbvia é a necessidade de adequar o conteúdo do que se ensina àquilo que os estudantes sabem previamente, sob o risco de não haver impacto sobre o conhecimento já adquirido.
"Nós não achamos nenhum livro didático que ajude o professor a identificar esse conhecimento prévio", afirma o diretor do Projeto 2061. O ano é aquele em que o cometa Halley deverá passar de novo perto da Terra. Uma imagem do cometa ilustra o site do projeto (www.project2061.org).
Nelson mostrou um slide com a famosa foto da Terra vista da Lua tirada pelos astronautas de uma missão Apollo. Para ele, se os educadores reformarem os currículos das primeiras décadas do século, os alunos do futuro poderão ver pessoalmente a cena. (RBN)


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