São Paulo, quarta-feira, 15 de agosto de 2001

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CRIANÇAS DO BRASIL

Menino que cruzou São Paulo dirigindo um Volvo 1996 passou seis dias na Febem, tendo a companhia de garoto que matou o pai

Justiça libera P., 12, que furtou ônibus

RICARDO KOTSCHO
DA REPORTAGEM LOCAL

A inacreditável aventura do menino de 12 anos, que entrou num ônibus sem motorista na Cidade Tiradentes, na zona leste, deu a partida, saiu dirigindo em direção ao centro e rodou por cerca de 80 quilômetros em São Paulo até ser parado pela polícia, na noite de quarta para quinta-feira passada, teve um final feliz ontem à tarde.
Detido há seis dias na Febem, P.C.R.S. saiu do Fórum das Varas Especiais da Infância e da Juventude acompanhado da mãe, Silvia Ribeiro da Silva, 28, faxineira desempregada, depois de responder a um interrogatório que durou 40 minutos. Ficará em regime de liberdade assistida e terá que prestar serviços à comunidade.
Baixinho e atarracado, meio envergonhado e meio orgulhoso com a traquinagem, mãos cruzadas às costas como qualquer interno da Febem, ele ainda parecia assustado às 9h de ontem ao entrar na sala de Sonia Regina Cesário, diretora da Unidade de Internação Provisória 7.
Nunca tinha passado antes pela Febem. Aos poucos, porém, foi ficando mais tranquilo e resolveu contar à reportagem da Folha o que o levou a sair pilotando naquela noite o ônibus 10.188 da Viação Cidade Tiradentes, um Volvo ano 1996.

Em busca do pai
A viagem de P.C.R.S., na verdade, começou bem antes, há sete anos, quando "o pai largou da mãe, saiu de casa e desapareceu". Mais velho dos seis filhos de Silvia e do cobrador de ônibus Sebastião Dias de Jesus, Brutus, como é chamado pelos colegas de rua na Vila Campanela, nunca se conformou com a separação dos pais. "Fiquei triste", lembra o garoto.
E passou a procurar por Jesus em todas as garagens de ônibus da zona leste. "Nunca mais achei ele", diz. Tanto zanzou pelas garagens que acabou fazendo amizade com motoristas, cobradores e mecânicos. Virou uma espécie de mascote dos "bicos", como se tratam os empregados das empresas de transporte coletivo.
Brutus não gostava de jogar bola e já não se satisfazia com o ônibus de madeira que sempre carregava debaixo do braço, desde pequeno. "Meu sonho sempre foi pegar um ônibus e sair dirigindo...", diz, abrindo um sorriso malandro e abaixando a cabeça.
De tanto insistir, acabou convencendo um certo Edésio, motorista da empresa Masterbus mais conhecido por Sapo, a levá-lo nas viagens do ônibus que faz a linha Vila Carrão e o Terminal São Mateus. "Ele ficava dirigindo, e eu olhando. Ele passava a marcha, e eu olhando. Aprendi assim, olhando ele". Tinha 9 anos.
Quando contou a novidade à mãe, Silvia não acreditou. A essa altura, ele só aparecia em casa de vez em quando. Depois que a Masterbus faliu, ele passou a frequentar a garagem da Viação São Judas, e assim foi indo até chegar à Viação Cidade Tiradentes. Dormia nos quartos dos socorristas e, de tanto olhar, acabou aprendendo também o ofício de mecânico.

A longa viagem
Brutus chegou a ficar um ano e meio sem ver a mãe, mas ela diz que não se preocupava "porque sabia onde e com quem ele estava". No ano passado, deixou a escola para se dedicar apenas à "carreira". Ao voltar para casa, há quatro meses, tinha perdido a matrícula na escola.
Sem compromissos, saiu de casa na quarta-feira passada e foi ver os "colegas" da garagem. Dias antes, tinha ouvido um comentário dos "bicos" de que seu pai estava trabalhando numa empresa de ônibus de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Domingo passado, era Dia dos Pais. Ficou com aquilo na cabeça.
Às 19h, o manobrista da Viação Cidade Tiradentes encostou o 10.188 no ponto final da avenida dos Metalúrgicos, próximo à garagem. O motorista e o cobrador do turno da noite ainda não haviam se apresentado. Brutus viu o "ônibus ali sozinho", e entrou. Ninguém apareceu. Partiu. "A essa hora, entregam o ônibus com o tanque cheio", sabia.
Primeiro, pensou em ir direto para São Bernardo do Campo para procurar o pai, mas se lembrou que, à noite, havia muito policiamento no trajeto. Achou melhor sair no sentido de São Mateus, um caminho que já conhecia bem, e pegou a avenida Aricanduva. Depois, a Jacu-Pêssego até o centro de Itaquera. E foi indo: avenida dos Campanela, avenida Águia de Haia, até a Radial Leste.
Ri quando lhe perguntam como conseguia alcançar o pedal do acelerador com seu diminuto tamanho. "Ué, é só puxar o banco para a frente..." E para trocar as marchas? "Não tinha problema. Peguei um carro hidramático com direção hidráulica, tudo fácil..." (carro é como os motoristas se referem ao ônibus).
"Não bati nenhuma vez em ninguém e fui embora. Não sabia se ia para São Bernardo ou ficava só dando um rolê". Brutus seguiu então até a estação do metrô Penha e subiu o viaduto em direção à marginal Tietê. Ali, empolga-se: "Cheguei a dar 120 [km/h"". Com o trânsito livre naquela hora, no começo da madrugada de quinta-feira, conta que levou quatro multas. "Eu vi o flash do radar piscar."
À altura do metrô Santana, deixou a marginal em direção ao terminal do parque D. Pedro, onde também tem amigos. Como já estava tarde, achou melhor pegar o trajeto de volta para Cidade Tiradentes e devolver o ônibus na garagem. Tudo corria bem, sem sustos. Mas, ao chegar bem perto da estrada Santo Inácio, onde fica a garagem, foi cercado por duas motos da Polícia Militar. Aí levou um susto, apavorou-se.
"Dei azar. Fui bater logo num outro ônibus da empresa, que estava com um amigo meu, o Aleluia." Levado primeiro para o 54 Distrito Policial, onde foi feito o boletim de ocorrência, viu o dia amanhecer no UAI (Unidade de Atendimento Inicial), a porta de entrada dos menores infratores.

De volta à escola
Se não sentiu medo no trânsito paulistano dirigindo um ônibus, na Febem a coragem acabou. Ao ser transferido para a unidade do Brás, ficou com um menor que tinha matado o pai a facadas, entre outros. Não queria conversa com ninguém. Só respondia a perguntas dos monitores. Na visita que recebeu da mãe no domingo, implorou para sair dali. Os dois choraram, mas era preciso esperar a decisão da Justiça.
A própria diretora da unidade, Sonia Cesário, há seis anos na Febem, ao ouvir a história de P.C.R.S. achou que não era caso de internação. Iria sugerir apenas uma advertência e a extinção do processo. Sem ninguém perguntar, Brutus garantiu que não pretende repetir a aventura. "Já matei a vontade."
Ao reencontrar a mãe ontem no Fórum, ficou sabendo que ela conseguiu matriculá-lo numa escola do bairro e hoje mesmo voltará às aulas. "O problema dele nunca foi comigo. É um bom menino. O problema dele é que gosta muito de ônibus", repetia Silvia ao final da audiência, enquanto aguardava a liberação do filho na calçada do Fórum, na rua Piratininga, no Brás.



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