São Paulo, domingo, 29 de maio de 2005

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SAÚDE

Comprimidos de Cytotec contrabandeados são vendidos em farmácias e sites, causam complicações e podem até levar à morte

Abortivo falso deixa mulheres em risco

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Comprimidos falsos de Cytotec, o remédio para úlcera gástrica que se transformou no recurso abortivo mais popular do Brasil, têm provocado infecções, queimaduras e até rupturas uterinas. Nos casos mais graves, há perda do útero e risco de morte.
Nos últimos 12 meses, pelo menos 80 mulheres deram entrada em hospitais públicos brasileiros com complicações associadas ao Cytotec falso, segundo 20 ginecologistas, enfermeiras e assistentes sociais entrevistados pela Folha.
O Ministério da Saúde não tem um levantamento específico sobre as complicações por abortamento provocadas por Cytotec, segundo a assessoria de imprensa. No ano passado, os abortos espontâneos e inseguros foram responsáveis por 243.998 internações nos hospitais do SUS, ao custo de R$ 35 milhões.
Desde 1998, a venda do remédio está restrita a hospitais credenciados na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Por provocar contrações uterinas, ele é utilizado na obstetrícia para induzir partos. Também é fornecido aos serviços de aborto legal.
No entanto, a droga tem chegado ao país contrabandeada do Paraguai, dos EUA e da Europa, conforme a Folha apurou em sete farmácias nas zonas norte e sul de São Paulo e em sites na internet que anunciam a venda do produto. Mulheres também relatam ter comprado de camelôs.
Cada comprimido custa, em média, de R$ 50 a R$ 100 -elas usam, no mínimo, quatro. Na internet, os anúncios dizem garantir o envio dos comprimidos em até 24 horas. "Vendo Cytotec original. R$ 200 quatro comprimidos. Vem dos EUA. Garanto 100% de efeito e segurança", diz um anúncio disponível na rede. A Folha tentou contatar, por e-mail, os autores de dez mensagens, mas não obteve resposta.
Por ser um produto contrabandeado, ninguém sabe ao certo a sua composição. A suspeita dos médicos é que muitos sejam placebo, já que as mulheres relatam a ausência de efeitos. Outra possibilidade é que a droga contenha baixa dosagem da substância misoprostol -princípio ativo do Cytotec-, insuficiente para a expulsão do feto.
Sem conseguir o efeito esperado (o aborto), as mulheres chegam a quadruplicar a dose normalmente usada em países onde o aborto é legal -quatro comprimidos-, segundo relatos de médicos.
"Atendi uma jovem de 17 anos grávida que tinha ingerido e introduzido na vagina 16 comprimidos. Sofreu uma infecção grave. Precisou ficar vários dias internada, tomando antibióticos e por pouco não perdeu o útero", diz o ginecologista Jorge Andalaft Neto, do Hospital do Jabaquara.
Segundo ele, o cenário é recorrente. A mulher usa os comprimidos, começa a sangrar e pensa que abortou. Com o passar dos dias, o sangramento se transforma em meio de cultura para as bactérias da região da vagina e, rapidamente, a mulher adquire uma infecção, que pode levar à perda do útero e até à morte.
"Percebemos que, após a entrada do Cytotec contrabandeado no mercado brasileiro, as complicações aumentaram", afirma Andalaft , coordenador da comissão de violência sexual da Febrasgo (federação que reúne as sociedades de ginecologia e obstetrícia).
O ginecologista Jefferson Drezett, do Hospital Pérola Byngton, acredita que as complicações possam estar ocorrendo em razão de erros no uso do remédio. Nos países onde o aborto é legal, a OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza quatro comprimidos até a 12 semana de gestação. Acima desse período, a dose deve ser reduzida pela metade.
A pesquisadora Eleonora Menegucci, do departamento de medicina preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que existe uma máfia por trás da venda de falsos Cytotecs em farmácias da periferia. "Há uma rede grande de contrabando e muita gente ganhando em cima de mulheres desesperadas. Além de perderem muito dinheiro, elas correm riscos", diz.

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