São Paulo, sexta-feira, 04 de outubro de 2002

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FESTIVAL DO RIO BR 2002

"A JANGADA DE PEDRA"

Nobel do escritor atrapalhou produção

Francês usa ironia para levar Saramago às telas

IVAN FINOTTI
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

Uma falha geológica surge nos Pirineus e separa a península Ibérica da Europa. Enquanto Portugal e Espanha navegam à deriva pelo Atlântico, cinco pessoas e um cachorro peregrinam atrás de respostas. Esse é o mote de "A Jangada de Pedra", de George Sluizer, 70, baseado no romance do português José Saramago.
Ao custo de US$ 4,8 milhões, "Jangada" é o 11 longa do francês Sluizer, que tem antiga relação com o Brasil. Seu primeiro longa foi rodado aqui nos anos 70 e ele voltou ao país dez anos depois para ajudar na produção de "Fitzcarraldo", de Werner Herzog.
Novamente no Brasil, para lançar seu filme no Festival do Rio BR 2002, ele falou à Folha.

Folha - O senhor começou a trabalhar nesse filme antes de Saramago ganhar o Nobel, em 98. O prêmio ajudou bastante, certo?
George Sluizer -
Não exatamente. Trouxe vantagens na Espanha e me prejudicou na França e nos Estados Unidos.

Folha - Mas como um Nobel pode ter prejudicado uma produção?
Sluizer -
O financiador francês tinha me dado US$ 1 milhão. Mas, quando soube do Nobel, pediu de volta, dizendo que a história deveria ser sofisticada, inteligente, intelectualizada, difícil, e ele não queria produzir esse tipo de filme.

Folha - E nos Estados Unidos?
Sluizer -
Nos EUA, foi mais complicado, pois os bancos envolvidos queriam o investimento de volta com juros mais altos, então eu desisti. A maioria do financiamento veio mesmo da Holanda, onde não houve problemas.

Folha - Saramago viu o filme?
Sluizer -
Eu mostrei para ele em Lisboa. Sua primeira reação foi me dar um forte abraço. E disse: "Chorei o tempo todo, obrigado". Depois me agradeceu por eu não ter feito um filme de catástrofe com estilo hollywoodiano.

Folha - No filme, o senhor faz piadas com os americanos, com os ingleses e com o Papa. Por que eles?
Sluizer -
Conflitos políticos. Por causa de políticas de pessoas que se dizem de paz, mas pensam na guerra. Que dizem que acreditam no amor, mas negam uma camisinha, como a Igreja. Essas situações irritam. Fiz um pouco diferente do livro, pois, se fiz com ironia, Saramago é mais agressivo.

Folha - O senhor é francês. No entanto, também faz piadas com a França. Isso acontece por causa da fronteira com a Espanha?
Sluizer -
Exatamente. Eu nasci na França e a piada veio porque geograficamente eu não poderia escapar. Coloquei o personagem olhando para o oceano, onde deveria estar a França, e dizendo: "Vejam, a França nunca existiu!". Poderia ter feito um diálogo como "Oh, a França deveria estar aqui". Mas de quem, afinal, é a história, se não dos vencedores? De quem é a verdade?

Folha - De quem?
Sluizer -
Veja só: fiz um filme aqui nos anos 70, "A Faca e o Rio", com Jofre Soares. Eu me apaixonei por um poema de Odylo Costa, quis conhecê-lo e vim filmar no Maranhão, Piauí e Amazonas. Voltei para a Europa e as pessoas diziam: "Brasil? Isso existe? Onde é?". Eu dizia que é onde tem samba. "Ah, sim, samba! Isso não é no Japão?" Não estou brincando. O fato é que Brasil ainda não era interessante para os europeus, não estava nos filmes, não existia. Eu nasci na França e sei que ela existe. Por isso pude fazer essa piada.


A JANGADA DE PEDRA - The Stone Raft. Holanda, 2000. Direção: George Sluizer. Com: Icíar Bollaín. Quando: hoje, às 19h, no Estação Barra Point 1; amanhã, às 17h, no Estação Ipanema 2; segunda, às 12h, no Estação Botafogo 1.


O jornalista Ivan Finotti viajou ao Rio a convite do Festival do Rio BR


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