São Paulo, sexta-feira, 18 de outubro de 2002

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26 MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SP

"MADAME SATÃ"

Karim Aïnouz dirige filme sobre lendário travesti

Produção encena luta do desejo contra a opressão

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

O contraventor João Francisco dos Santos, o Madame Satã (1900-76), é uma figura mítica do submundo carioca.
Ao escolhê-lo como tema de seu primeiro longa, o diretor cearense Karim Aïnouz mostrou ousadia, até porque já havia sido feito, nos anos 70, um bom filme inspirado no personagem: "Rainha Diaba", de Antonio Carlos Fontoura.
Mas, se Fontoura via o Satã, por assim dizer, "de fora para dentro", o novo filme faz o oposto. Em vez de buscar compor um painel social, Ainouz centra o foco em seu personagem.
É como se as contradições e potencialidades da sociedade brasileira passassem todas pelo corpo e pelo espírito de Madame Satã.
Preto, pobre, analfabeto, homossexual, o Satã do filme de Aïnouz é uma espécie de excluído absoluto, que, entretanto, se rebela contra essa exclusão.
É "um negro que não sabe o seu lugar", ou melhor, que não cabe nele. Toda a tremenda força do filme vem dessa tensão, desse ímpeto para romper limites.
É quase uma tradução audiovisual do célebre poema de Brecht sobre a violência, que diz mais ou menos o seguinte: "Do rio que transborda, arrasta árvores e destrói casas, diz-se que é violento. Mas não se fala da violência das margens que o comprimem".
O admirável em "Madame Satã" é que todos os valores estéticos do filme se integram organicamente de modo a potencializar e reverberar esse motivo central.
Ao se restringir ao ano de 1932, momento imediatamente anterior ao salto existencial que transmuta João Francisco em Madame Satã, o roteiro capta de certo modo a plenitude do personagem, a densidade máxima de seu signo.
A narrativa avança por meio de situações de opressão e explosão -tanto no plano da violência como no do erotismo.
Seduzido por um rapaz bonito, Satã se refreia ao máximo antes de dar vazão ao desejo. Humilhado pela cantora de cabaré para a qual trabalha de camareiro (Renata Sorrah), acumula ódio até o desabafo ser inevitável.
A escolha do ator foi muito feliz: o jovem baiano Lázaro Ramos traduz em gestos precisos e em sutis modulações de voz os extremos anímicos do personagem, da doçura à brutalidade.
Os coadjuvantes -Marcélia Cartaxo como uma prostituta, Flávio Bauraqui como um homossexual afeminado e passivo (o contrário do Satã)- também estão excelentes.
As canções -em geral sambas antigos, como o extraordinário "Se Você Jurar", de Sinhô- e os delirantes textos poético-dramáticos declamados por João Francisco em seus espetáculos de cabaré dão conta de certa vocação sincrética e antropofágica da cultura afro-brasileira.
Mas é no terreno propriamente cinematográfico que o filme se impõe de modo mais notável.
A par da ambientação predominantemente noturna e das cores "estouradas", que configuram um espaço pulsante, os enquadramentos -em geral fechados, não raro deixando fora do quadro partes do corpo do protagonista- concorrem para a idéia da desmesura, do "não caber".
Há toda uma política e toda uma moral embutidas nessa estética. Contra o perverso mecanismo da história, contra a arquitetura injusta do mundo, o indivíduo se insurge com seu corpo e (na falta de nome melhor) com sua alma. Um grande filme.

Madame Satã


    
Direção: Karim Aïnouz
Com: Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo Quando: amanhã, às 22h40, no Unibanco Arteplex 2; dia 24, às 22h15, no Espaço Unibanco 1; dia 29, às 17h10, no Cinesesc



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