São Paulo, quinta, 24 de setembro de 1998

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MÚSICA
Calcanhotto tenta superar o desânimo

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Reportagem Local

A cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto (o "t" agora é dobrado), 32, expõe a partir de hoje em São Paulo seu novo disco, "Maritmo". O período, segundo ela, é de restabelecimento.
Ao lançar "Maritmo", há poucas semanas, ela se dizia desanimada, demonstrando pouca empolgação com o CD. "Agora já passou um pouco", diz. "Foi um disco difícil de ser feito. Me machuquei (ela se recupera de um acidente no joelho), fiquei doente. Acabei questionando o sentido do trabalho, o papel da música na minha vida."
Diz que o desânimo foi passando sem que chegasse a alguma conclusão. "Estava fazendo um disco mais pop na superfície, fiquei pensando nos impasses do pop, que por um lado é solto, por outro é encurralado, cheio de regras, fórmulas, pecados que você não pode cometer. Às vezes fica aborrecido."
Os pecados, segundo ela, seriam "uns absolutos que se ouvem o tempo todo: isso não toca, isso não pode, tem que saber o que vai tocar, o que vai ser bem-sucedido".
É de pressão da gravadora (a Sony) que ela está falando? Adriana responde obliquamente: "Não pude fazer só o que queria. Vou delineando um trabalho, algumas coisas vão ficando mais claras, outras menos. Isso não quer dizer que o resultado tenha me desagradado. Ficou um disco mais fácil de ouvir, mais redondo. Não fico preocupada em fazer só o que quero".
Pelas beiradas, ainda deixa escapar um ar de insatisfação: "Outro disco assim acho que eu não faria. Não quero me preocupar com o que vão achar do loop, do sampler. Foi meio assim neste CD".
Tenta, então, explicar como vem superando o tal desânimo. "Enquanto estava fazendo, cheguei a achar que não era honesto, pensei em parar com tudo. Aí vi que devia dois discos à gravadora, resolvi que ia ficar bem. Eu pretendia dar um passo enorme e não dei. Foi muito difícil, mas foi muito bom."
A artista não detalha mais as razões que conduzem ao que afinal parece configurar uma crise -dela, talvez do cenário todo. "Não sei se há uma crise, mas tenho reparado que as pessoas têm articulado mais suas crises -Marina e Leila Pinheiro têm falado sobre isso. Acho positivo."
Em meio à possível crise, Adriana volta, em "Maritmo", a referências mais ou menos habituais em sua obra -antropofagia, poesia concreta, parangolés de Hélio Oiticica. "Não acho que sejam referências antigas. A interatividade dos parangolés não é antiga, identifico-me mais com eles do que com minha geração, que acho retrô."
Mas não seria retrô escrever uma música chamada "Vamos Comer Caetano"? "Para mim foi irresistível. Mas não é uma canção de celebração, é de devoração. Inclui amor e ódio."

Show: Adriana Calcanhotto Onde: Palace (av. dos Jamaris, 213, Moema, tel. 011/531-4900) Quando: hoje, às 21h30, amanhã e sábado, às 22h Quanto: R$ 15 a R$ 45


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