São Paulo, segunda-feira, 27 de agosto de 2001

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RELÂMPAGOS

Centro da cidade

JOÃO GILBERTO NOLL

Precisava descobrir como arrancar a corrente de ferro do meu tornozelo. Falei que ia no consultório da doutora Vera. "Ah", o porteiro respondeu sem me olhar. A sala de espera, vazia. Sentei, olhei o inchaço do pé acorrentado. Peguei uma revista despedaçada, adormeci. Passou-se muito tempo, acho, porque uma parte de mim batia de noite numa porta, cães ladravam, certamente atiçados pelo meu miasma de terror. Eu batia, batia, até uma ventania levar o meu chapéu. Debruçada sobre meu ronco, me acordando, sim, a doutora, em seu jaleco meio aberto, entremostrava seios nos quais fui de pronto para fugir dos cães. No desvairado regalo, ouvia um arrastar dos grilhões. Que jeito?, eu vinha de séculos, e só agora encontrava uma, ah!, uma taverna, enfim...


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