São Paulo, quarta, 28 de outubro de 1998

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CINEMA
Pré-estréia do filme "Coração Iluminado", promovida pela Folha na segunda, apresentou debate com diretor
Babenco disseca o passado sem nostalgia

Norma Albano/Folha Imagem
Da esq. à dir., Hector Babenco, José Geraldo Couto, Marcelo Coelho e Luiz Tenório Lima, no debate


da Reportagem Local

Hector Babenco, lembrou o escritor Marcelo Coelho, sempre se destacou por ser um cineasta voltado para o outro. Em "Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia" e em "Pixote, a Lei do Mais Fraco" tratou do universo dos marginais. Em "Ironweed" voltou-se para os excluídos e em "Brincando nos Campos do Senhor" falou do encontro entre índios e missionários.
"Minha primeira surpresa com "Coração Iluminado' foi justamente o seu tom autobiográfico", disse Coelho, durante debate realizado na segunda-feira, após a pré-estréia do último filme de Babenco no Espaço Unibanco de Cinema.
A pré-estréia, promovida pela Folha em conjunto com a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o Espaço Unibanco, foi seguida do debate "Loucura e Identidade", do qual participaram o diretor de "Coração Iluminado", o membro do Conselho Editorial da Folha Marcelo Coelho e o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
A mediação do debate coube ao jornalista José Geraldo Couto, articulista da Folha.
Dissecando o passado
"O filme surgiu da necessidade doentia de querer revisitar momentos da minha vida, de dissecar meu passado sem fazer uma autobiografia e sem querer soar nostálgico", disse Babenco.
"Coração Iluminado" acompanha a história de Juan, jovem de Mar del Plata, Argentina, desde a sua juventude até o seu regresso à cidade, 20 anos depois.
Quando jovem, Juan (Walter Quiróz) se liga a uma trupe de intelectuais excêntricos que, entre outros passatempos, se dedicam a tentar fotografar a aura humana.
Uma dos frequentadoras da trupe é a instável Ana Rossi (Maria Luiza Mendonça), que já passou por hospitais psiquiátricos e com quem, a contragosto de sua família, Juan acaba se envolvendo.
A trajetória de Juan e a de Babenco traz diversos pontos em comum: "A sua identidade judaica, o meio anti-semita em que ele vive, a relação com a família e o medo da opressão que esta pode exercer", afirma o cineasta.
Após 20 anos, revemos Juan, que se tornou um cineasta consagrado, (agora vivido por Miguel Angel Sola) retornando à sua cidade natal. Em seu regresso, ele encontra a enigmática Lilith (Xuxa Lopes) que lhe traz a lembrança de Ana.
O psicanalista Luiz Tenório Lima lembrou que Sigmund Freud, ao escrever sua autobiografia, acabou fazendo um relato biográfico da psicanálise.
"Babenco pode não ter feito uma autobiografia, mas fez uma biografia do cinema. A trupe de esotéricos, ao tentar fotografar a aura humana, propõe-se a exercer a mesma função do cinema."



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