São Paulo, quarta, 28 de outubro de 1998

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"OS IDIOTAS" - CRÍTICA
"Os Idiotas" é puro e utilíssimo "banalismo"

Divulgação
Cena de 'Os Idiotas', do dinamarquês Lars von Trier, que aplica os princípios do Dogma e será exibido hoje


ALCINO LEITE NETO
editor do Mais!

Não há nada de rigorosamente original no manifesto Dogma dos diretores dinamarqueses liderados por Lars Von Trier.
Ora um, ora outro, todos estes mandamentos rebeldes já foram aplicados pelas vanguardas do início do século, pelo neo-realismo italiano, pela nouvelle vague francesa, pelo cinema novo brasileiro, pelo filme underground.
A única novidade do Dogma é seu anacronismo e sua ironia.
Pois já não existem manifestos estéticos. E os que vierem à luz serão necessariamente ridículos. A arte hoje sobrevive apenas graças ao "dogma da arte", o mesmo que oculta a sua insignificância nesta época em que tudo é, ou deseja ser, artístico.
Há artistas demais no mundo.
Poetas, videomakers, costureiros, chefes de cozinha, fotógrafos, pintores, cineastas -e está pronto o purgatório: todos se equivalem no sistema transnacional de trocas desta mínima expressão individual espetacularizada.
E lá vem o crítico, o metafísico, dizer: "Sim, há muitos artistas, mas arte mesmo existe pouca".
Contudo há também arte demais no mundo -pois a crítica é perspicaz o bastante para não sacrificar o animal histórico que a alimenta... com as sobras de sua agonia. Acorrentadas uma diante da outra, arte e crítica idealizam sua autonomia narcisisticamente.
Por mais que se leia o Dogma, ainda assim será difícil imaginar até onde Lars von Trier chegou com "Os Idiotas".
Isto, porque falta no manifesto o 11 mandamento -sua conclusão, seu subentendido-, levado a cabo neste filme assustador: não cederás à tentação artística.
Parece fácil aderir a esta negação numa arte bastarda (o cinema), mas basta pensar na estetização do massacre da praia de Omaha por Spielberg para supor o contrário.
Salvo posterior arrependimento de Von Trier, "Os Idiotas" indica o caminho de seus filmes rumo a um utilíssimo "banalismo" -o mesmo que faria vir por terra toda a ansiedade de elevação que se possa atribuir ao cinema e, se quiserem, à arte em geral.


Arte x pornografia Filme da completa dessublimação, da revolta brutalista e imbecil, "Os Idiotas" nem sequer teme este demônio (este limite) atual da arte: a pornografia.
E lá vamos nós, espectadores, encarar no filme um bacanal gelado, em que penetrações cruas explicitam o recalque e desmontam o vai-e-vem da falsa consciência.
Quem são "Os Idiotas"? Um pouco os protagonistas, que se fingem de débeis mentais para rir de cidadãos assentados em seu conforto existencial.
Um pouco estes mesmos cidadãos, que não se dão conta de sua vida insignificante.
Outro tanto os espectadores, que serão obrigados a encarar uma cena de amor feita de grunhidos e gestos desgovernados.
"Os Idiotas" não diz respeito ao futuro do cinema. É a inteira presentificação do niilismo contemporâneo, sem nostalgia nem meias-imagens.
É um apelo irritantemente sincero de que talvez seja preciso livrar-se da arte para poder voltar a viver com ela. E haja coragem para manifestar um ressentimento tão vibrante.



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